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ABRIL 2008 - Nº 181 ÍNDICE

produção

Infra-estrutura HD: ter ou não ter?

Emissoras dizem que há demanda, mas prestadores de serviço ainda não vêem retorno satisfatório na substituição de seus equipamentos SD por outros de alta definição.

Daniele Frederico

Desde o final de 2007, quando as transmissões da TV digital tiveram início em São Paulo, o mercado de prestação de serviços de produção passou a equipar-se para uma possível demanda de produção em alta definição. Novas câmeras, novos caminhões, novas estruturas de pós-produção foram adquiridos para suprir uma demanda das emissoras que, no entanto, mostrou-se tímida. Com a maioria dos canais montando seus próprios parques em alta definição, o que sobrou para os prestadores de serviço foram conteúdos excedentes (como jogos de futebol), eventos internacionais e até mesmo longas para o cinema.
Por outro lado, para alguns radiodifusores, a infra-estrutura high-definition disponível hoje no mercado de produção não é suficiente para atender à demanda. A maioria das empresas prestadoras de serviço ainda está envolvida na mudança de seus parques analógicos para o digital e só vai começar a se equipar quando a demanda por parte das emissoras for maior.
Diante deste cenário, até mesmo aqueles que estão investindo no novo formato têm sido cautelosos. O momento é de acompanhar a demanda do público, que por sua vez resulta em uma demanda de produção e consequentemente em uma demanda por serviços além daqueles que a própria emissora é capaz de realizar.
Assim como a transição de parques analógicos para os digitais não aconteceu repentinamente, a migração para o HD também está acontecendo de forma gradual, apesar do momento de euforia vivido inicialmente com o anúncio do início das transmissões digitais – e em alta definição – em São Paulo.
Para o diretor de engenharia da Rede Globo em São Paulo, Raymundo Barros, a oferta e a demanda de infra-estrutura HD ainda estão desalinhadas. “A maior parte dos prestadores de serviço está concluindo a migração para digital SDTV dos sistemas que estão disponíveis para aluguel. Raros são os investimentos em infra-estrutura dedicados para a produção HDTV”, diz. O diretor de operações e engenharia da Record, Reinaldo Gilli, também afirma que a infra-estrutura disponível hoje no mercado não é suficiente para atender à demanda. Ele acredita que além dos equipamentos próprios, as emissoras precisarão dos serviços de terceiros.
No caso da TV por assinatura, que ainda tem poucas ofertas de transmissão em alta definição – no momento somente a Net oferece o decoder HD aos assinantes – a demanda por serviços de produção existe principalmente pelo fato de as programadoras não estarem totalmente equipadas internamente para assumir a produção. O único canal HD disponível no momento é o Globosat HD, que serve como vitrine para os produtos em alta definição da programadora. Antes do lançamento do canal, a Globosat já fazia testes com alguns de seus conteúdos. No caso do SporTV, por exemplo, as produções de jogos em HD começaram no ano passado, na fase final do Campeonato Brasileiro. Como a programadora não tem estrutura interna de produção, buscou os serviços de produção disponíveis no mercado. “Nesse período, o mercado externo de produção estava engatinhando”, diz o diretor do Globosat HD, Pedro Garcia. “Cada um tinha um pedacinho do todo: um tinha a captação, outro a edição, outro a pós-produção”, afirma.
O diretor explica também que na Globosat o mercado atingido por esse conteúdo HD é monitorado para determinar para onde deve caminhar a produção, ou seja, se deve ou não aumentar o número de horas produzidas neste formato. “Ainda não sentimos falta de equipamento no mercado. Talvez isso aconteça por que a nossa demanda seja pequena”, conta.

Frustração na demanda

Por mais que haja demanda por parte dos canais, o mercado tem sido cauteloso em com as suas aquisições. Para alguns prestadores de serviço, houve certa frustração em relação à demanda por serviços HD desde o ano passado. Rita Hernandes, da locadora Jotaeme, conta que eles tinham uma expectativa de demanda para depois de dezembro de 2007, mas ela não aconteceu. “Começamos com o HD há dois anos, e tínhamos uma expectativa que a demanda crescesse depois de dezembro, o que não aconteceu. Estou um pouco decepcionada”, diz Rita. Mesmo tendo montado uma unidade móvel de captação HD com 12 câmeras, a locadora de Rita ainda faz cerca de 70% de seus trabalhos em SD, já que a demanda por este tipo de captação ainda é maior. “Mesmo os conteúdos captados em HD, como o São Paulo Fashion Week, feito para o canal GNT, da Globosat, acabam sendo transmitidos no formato padrão”, diz.
Para Mário Luiz Santi, da Programasom, com poucas exceções, a maioria das emissoras ainda não precisa desse produto em HD. “As empresas que oferecem serviços HD no momento estão suprindo a necessidade do mercado”, diz Santi. A produtora não deve investir em uma migração neste primeiro momento, já que custaria, segundo Santi, cerca de R$ 6 milhões para substituir suas 14 câmeras atuais. “Vamos começar a comprar câmeras e equipamentos HD daqui a, no mínimo, dois anos”, afirma.
Para ele, o grande gargalo está no consumidor final, que ainda não tem acesso a esse tipo de produto. “As pessoas estão querendo investir em produção, mas o consumidor não está sendo incentivado a mudar o equipamento de suas casas” diz. “Produção, investimentos e público têm que caminhar juntos”, afirma Santi, que acredita que o HD vai se consolidar dentro de três ou cinco anos.
Enquanto as emissoras dizem que a infra-estrutura hoje disponível não é suficiente, é notável que a televisão continua a insistir em um modelo de produção interno, adquirindo seus próprios equipamentos e com benefícios oferecidos pelo governo. “No caso da TV Globo a conversão do parque próprio de equipamentos para HDTV segue o planejamento estratégico de longo prazo e tira proveito da permanente redução dos custos desses ativos”, diz Barros, da Globo. “Produzimos quase 100% do conteúdo HD nacional hoje no ar em SP com recursos próprios”.
Para Édina Fujii, da Quanta, a falta de incentivos como aqueles oferecidos às emissoras impede que as locadoras adquiram equipamentos em HD no ritmo esperado. “O mercado não está se equipando como deveria até por causa dos altos impostos”, diz.
Antes mesmo de pensar em fazer a migração de suas estruturas para a alta definição, é preciso, segundo Barros, que haja massa crítica para esse tipo de produção. “É necessário que haja volume suficiente de programação HD por parte de emissoras e produtoras para que os prestadores de serviço possam fazer os investimentos em unidades móveis e instalações em HDTV para aluguel”, diz o diretor de engenharia.
Na TV por assinatura, no entanto, as oportunidades podem ser mais freqüentes, já que as programadoras não costumam equipar-se internamente para a produção de seus programas. O modelo de compra de conteúdo já pronto e produção própria devem continuar, com a parceria de produtores independentes e fornecedores de serviço. “Sempre tivemos parceria com várias produtoras. Não é o HD que vai mudar isso”, diz Pedro Garcia. Ele ressalta, porém, que fora dos grandes eixos de produção, o HD é uma realidade um pouco mais distante, principalmente pela falta de distribuição desse tipo de formato. “No caso do futebol, se a praça não tem estrutura para a produção HD, talvez não selecionemos um jogo que aconteça neste local para fazer em alta definição. O custo de deslocar um caminhão para lá pode não compensar”, diz.
Diante desse cenário, o que sobra para produtoras e locadoras? Segundo Lutz Dobberthim, da Motion (empresa que foi integrada à Quanta para oferecer serviços de locação de câmeras além dos serviços de movimento e estúdio), os prestadores de serviço deverão focar seus esforços em alta qualidade, o que pode diferenciá-los das próprias emissoras. “Haverá mercado para a produção de minisséries e outras atrações que necessitem de alta qualidade, algo superior até mesmo ao HD full”, diz. Ele acredita que o padrão HD full buscado hoje é algo que deve ficar a cargo das emissoras. “A tendência para os prestadores de serviço é ter qualidade superior, com formatos 2K, 4K ou até 6K no futuro”, diz. No momento, a Motion tem tido demanda de câmeras HD para a produção de longas-metragens. Filmes do produtor Diller Trindade, como os longas da Xuxa e do Didi, e produções como a da Gullane Filmes em parceria com a China (ver matéria à página 34), utilizam o formato.

Correndo atrás

Embora paulatinamente, pode-se perceber o movimento do mercado de produção e locação de equipamentos no sentido de experimentar e oferecer serviços para o novo formato. “Há que se reconhecerem os esforços localizados que começaram a surgir no fim do ano passado tanto em recursos de produção como em SNGs para transporte de sinais HDTV desde as arenas esportivas e de show até as emissoras”, afirma Barros, da Globo. “O mercado brasileiro começa a amadurecer e muitas produtoras já possuem know-how e ativos adequados para trabalhar para a TV Globo em projetos específicos”, diz.
Garcia, do Globosat HD, conta que de dezembro de 2007 até o momento, o cenário mudou muito. “Já há produtoras se preparando para fazer a produção em HD. Os produtores estavam esperando a demanda”, analisa.
Uma das produtoras que em 2007 ampliou a sua capacidade de prestação de serviços em HD foi a Casablanca. Embora já venha se equipando para a alta definição desde 1999, tendo hoje 70% de seu parque tecnológico em HD, foi no final do ano passado que a produtora montou duas unidades móveis para a transmissão de eventos ao vivo. A primeira transmissão HD da Casablanca aconteceu para o canal japonês NHK. Para o Brasil, o primeiro trabalho deste tipo foi a Copa do Mundo de 2006 para a TVA, seguido, em 2007, pelo Live Earth, evento de música que acontece simultaneamente em oito países.
O mercado de eventos internacionais, aliás, é uma das fatias de mercado a ser explorada pelos prestadores de serviço.
O Live Earth, por exemplo, também beneficiou a Jotaeme, responsável pela captação.
“Há demanda para transmissões internacionais e eventos de fora do Brasil. Agências que
vêm do exterior procuram a captação e a transmissão em HD”, diz Rita Hernandes.
Seja por parte das emissoras quanto das prestadoras de serviço, o fato é que os equipamentos para produção e transmissão HD estão em crescimento no mercado. Esse movimento de migração pode ser notado quando o assunto é venda e compra de equipamentos HD para broadcast. Segundo o gerente de broadcast da Sony Brasil, Luis Fabichak, a demanda por HD cresceu muito, especialmente no segundo semestre de 2007, com destaque para os segmentos de jornalismo em alta definição e produções de alto nível, como séries, novelas e filmes. “Em 2007 quase triplicamos as vendas de produtos em alta definição”, diz Fabichak sobre produtos broadcast e dos segmentos de médio a high-end. “Acredito que o boom deve acontecer entre 2008 e 2009, com a expansão do HD para as afiliadas”, afirma.
Ele diz que o segmento que abastece os estúdios recebeu muitos investimentos, com a compra de câmeras HDC da série 1500, por exemplo, que também são usadas em unidades móveis. “As XDCam também estão sendo muito requisitadas para o jornalismo”, conta.
Quanto aos compradores, segundo Fabichak, o que se percebe é que as emissoras ocupam um volume grande das compras desse tipo de equipamento, mas o mercado de produção também vem crescendo. Para 2008, a perspectiva de crescimento da Sony em relação a 2007 é de 25% da linha broadcast, especialmente de equipamentos em HD (câmeras, switchers e outros) e 25% do segmento de HDCam.

Futuro

Embora o mercado ainda esteja passando por uma fase de transição, nota-se que o otimismo permeia o setor para o ano de 2008. Alguns programas de linha já estão em produção em HD, como o “Circo do Edgard”, do Multishow, com captação da Jotaeme. O próximo passo da locadora, aliás, é adquirir um VT em HDCam e oferecer estúdios para locação.
Pedro Garcia conta que no caso da Globosat a demanda para 2008 já está mais ou menos estruturada. Além do “Circo do Edgard”, devem ser produzidas em HD outras atrações dos canais da programadora, como o “Prêmio Multishow”, shows e alguns jogos do Campeonato Brasileiro de futebol. Ele ressalta que terão preferência para captação em HD os jogos que possam ser exibidos também em alta definição. Os jogos captados em HD ainda estão sendo exibidos no pay-per-view em SD e apenas as reprises são exibidas no Globosat HD em alta definição.
Ainda que as produtoras e locadoras estejam se equipando e percebendo a demanda por esse tipo de serviço, para Alex Pimentel, da Casablanca, a migração total para o HD deve demorar. “Acho que essa transição vai demorar os dez anos previstos para que as emissoras desliguem o sinal analógico”, afirma. A Casablanca, visando a cobertura de eventos ao vivo, pretende montar uma unidade móvel com essa finalidade ainda este ano.