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Plastic City
Lizandra de Almeida
Co-produção traz asiáticos para o coração de São Paulo.
Esta matéria faz parte de uma série que Tela Viva publica mensalmente, explicando o desenvolvimento de projetos audiovisuais bem sucedidos, sob o ponto de vista do modelo de negócios e do financiamento.

Primeira co-produção entre Brasil e China, "Plastic City" tem participação majoritária brasileira (60%). O restante foi captado com a pré-venda do filme na Ásia.
Na telona, duas gangues mafiosas – uma chinesa e outra japonesa – vão se digladiar pelo controle do mercado de produtos contrabandeados em São Paulo. Por trás das câmeras, uma equipe formada por brasileiros, chineses e japoneses trabalha – no mesmo local – para transformar em filme o roteiro criado pelo diretor chinês Yu-Lik-Wai.
Primeira co-produção entre Brasil e China, o longa-metragem “Plastic City” tem suas filmagens previstas para terminar no final de abril ou início de maio. Ambientado no bairro oriental paulistano, a Liberdade – que já foi um reduto de japoneses, que hoje estão misturados a chineses e coreanos – o filme tem algumas licenças poéticas e vai retratar São Paulo de uma forma um tanto surreal. Até neve deve cair na cidade.
A idéia do roteiro surgiu quando o diretor esteve em São Paulo pela primeira vez, em 2003, para finalizar um trabalho na casa de pós-produção TeleImage. Encantado com o caos de São Paulo, que considera “dez vezes maior do que o de Hong Kong”, conforme afirmou para o jornal Folha de S.Paulo, ele foi desenvolvendo a idéia até transformá-la no roteiro de “Plastic City”. Em 2006, voltou à cidade para trabalhar o roteiro com Fernando Bonassi, que assinou os roteiros de filmes como “Carandiru” e “Cazuza – O Tempo não Pára”. E agora está de volta para as filmagens em si.
O filme é uma co-produção entre a brasileira Gullane Filmes e a produtora de Hong Kong Xstream Pictures, que tem como sócios Lik-Wai, Chow Keung e Jia Zhang Ke, diretor vencedor do Leão de Ouro de Veneza em 2007 com o filme “Still Life”. A aproximação entre Lik-Wai e os irmãos Gullane aconteceu por intermédio de François da Silva, diretor da Quinzena dos Realizadores, uma das seções do Festival de Cannes.
A participação da Gullane Filmes é majoritária. De um orçamento de US$ 2,8 milhões, 60% estão sendo financiados pela produtora brasileira e os demais 40% pela Xstream. Os recursos brasileiros foram provenientes da captação de recursos com os artigos 1 e 1A da Lei Rouanet, assim como do uso do artigo 3º pela Paris Filmes, uma das distribuidoras do filme. A maior parte do montante veio do prêmio do BNDES de 2007, que também fomenta com o uso do artigo 1A da Lei Rouanet.
Os demais 40% foram captados com a pré-venda do filme na Ásia. “A empresa japonesa Bitters End comprou os direitos para o mercado japonês. É uma distribuidora com cerca de dez lançamentos anuais, todos nessa linha de filmes de arte com apelo comercial”, diz Fabiano. A distribuidora chinesa Sun Dream, por sua vez, adquiriu os direitos de distribuição para a China e Taiwan.
“É uma produção 100% brasileira, com 60% de investimentos locais. Isso se reflete na composição da equipe e do elenco. E por enquanto só temos compromisso com três países asiáticos. Os mercados norte-americano e europeu ainda nem começaram a ser explorados”, afirma Fabiano. “Poderíamos ter ido atrás de mais recursos no exterior, mas a entrada de mais parceiros faria com que perdêssemos o controle.” A entrada das distribuidoras internacionais trouxe consigo algumas imposições quanto ao elenco, que foram consideradas adequadas pelo diretor e pelos produtores. Foi de onde surgiu a indicação de Odagiri Joe, ator que tem se destacado no cinema japonês e que já recebeu vários prêmios em festivais mundo afora, além de protagonizar “Blood and Bones”, do diretor japonês Takeshi Kitano.
O elenco tem cerca de dez atores principais, metade asiáticos, metade brasileiros. Entre os estrangeiros estão também Anthony Wong, de Hong Kong, e a atriz chinesa Huang Yi. Alexandre Borges, Antônio Petrin, Milhem Cortaz e Tainá Muller integram o casting brasileiro.
A equipe também é dividida. Segundo o produtor executivo Fabiano Gullane, o staff de fotografia, câmera e movimento veio da China. “Como Lik-Wai é diretor de fotografia, trouxe sua equipe, que já colaborou em outros filmes”, diz Fabiano. Os demais membros são brasileiros, assim como todo o parque de equipamentos. “Oferecemos, inclusive, uma câmera HD de um modelo mais moderno do que o solicitado pela equipe.”
A estratégia de lançamento tem a ver com a política da produtora de não só explorar o mercado de exibição comercial, mas de fazer questão de apresentar seus filmes nos festivais mais importantes do mundo. “Sempre inscrevemos nossos filmes em todo o circuito de festivais, para depois fazermos o lançamento. Acreditamos que os festivais alavancam o filme.”
Com filmagens previstas para terminar em final de abril, o material bruto segue com o diretor para Hong Kong para o primeiro corte. Depois, retorna para ser finalizado no Brasil. A previsão é a de que esteja pronto no final de 2008, para começar sua carreira em 2009.
Em seu currículo, Lik-Wai assina a direção de fotografia dos filmes de Jia Zhang Ke, um dos mais cultuados diretores chineses atuais, e a direção de fotografia de segunda unidade dos filmes mais recentes de Won-Kar-Wai. Seu longa “Love Will Tear Us Apart” foi selecionado para a competição do Festival de Cannes em 1999, e “All Tomorrow’s Parties”, de 2003, para a mostra Un Certain Regard.
“Plastic City” é o segundo filme rodado pela Gullane Filmes em co-produções internacionais. O primeiro foi “Chega de Saudade”, de Laís Bodanzky, em parceria com a emissora francesa Arté, que colaborou no roteiro e entrou com 8% dos recursos. A produtora também prepara “Birdwatchers”, do italiano Marco Bechis, um longa rodado na região Centro-Oeste, que discute a epidemia de suicídios entre os índios guarani de Dourados. Nesse caso, 80% da produção é italiana, mas 95% da equipe é brasileira.
| FICHA TÉCNICA |
Plastic City
Longa-metragem
(Co-produção Brasil-China,
ficção, 35 mm, lançamento previsto para 2008)
Direção: Yu-Lik-Wai
Empresas produtoras: Gullane Filmes (Brasil) e Xstream Productions (China)
Sinopse: Numa São Paulo surrealista, duas gangues de contrabandistas, uma chinesa e outra japonesa, lutam pelo controle do mercado.
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