Editorial
Competição acirrada
André Mermelstein
TELA VIVA participou em meados de abril, do MipTV, principal evento mundial de programação para televisão, que acontece anualmente em Cannes, na França (na verdade, semestralmente, pois o Mipcom, em outubro, é virtualmente o mesmo evento).
É o local onde, além de ter a oportunidade de assistir a palestras de alguns dos grandes nomes da mídia mundial, inclusive das novas mídias, as empresas se encontram para comprar e vender programas, e para negociar projetos de co-produção.
Nos quilômetros de estandes exibindo os últimos lançamentos em documentários, novelas, animações, séries etc, o que se via era mais do mesmo. Toneladas de produções lutando pelo pequeno espaço deixado pelos grandes estúdios norte-americanos, que ainda dominam o mercado mundial. Um produtor/distribuidor experiente calculou que apenas 20% de toda a produção fora das majors encontra um “outlet”, um canal de exibição digno deste nome.
Nos debates, as novas mídias (dá para chamar de novas ainda?) dominaram o temário. Todos querem saber como transformar toda esta tecnologia de celular e banda larga em receita para quem produz audiovisual. Ninguém descobriu ainda, sem falar na ducha gelada que foi o Joost, a grande novidade do ano passado, que vem naufragando por problemas técnicos e de conteúdo.
A verdade é que a teoria da Cauda Longa funciona bem apenas para quem agrega conteúdo de terceiros para oferecer ao usuário, ganhando pouco em cima dos conteúdos de nicho, mas faturando bem em cima do volume total de vendas.
Para o produtor, que tem em geral poucos títulos em catálogo para conseguir uma boa receita, a esperança ainda é emplacar um programa na mídia tradicional.
O que parece sim funcionar cada vez mais é o mercado de idéias, ou formatos. A venda de scripts e “bíblias” de programas de sucesso para serem produzidos localmente é uma tendência que cresce ano a ano. Produções locais, como novelas coreanas e alemãs, fazem sucesso em seus países de origem e em seus vizinhos. Para não falar em sucessos globais como “Betty, a Feia”, novela colombiana que virou até sitcom nos EUA.
A Televisa, gigante mexicana do broadcast, por exemplo, anunciou no MipTV sua parceria com a francesa JLA, que produzirá seus dramalhões na Europa, com atores franceses e texto adaptado aos costumes locais. É uma forma que a Televisa encontrou de ter participação direta no mercado internacional, inclusive na divisão da publicidade.
A Globo, maior broadcaster e maior exportador brasileiro de conteúdos, ainda não embarcou neste modelo e apresentou no MipTV seu cardápio de novelas e séries prontas. Mas não deve demorar para a emissora do Jardim Botânico aderir a esta grande tendência de exportar não a “lata de filme”, mas o que ela tem de mais valioso: seus textos e o know-how da produção.
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