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ABRIL 2008 - Nº 181 ÍNDICE

entrevista

Pronto para a briga

André Mermelstein

José Felix, CEO da Net Serviços, diz que a Telefônica não incomoda, que o DTH da Embratel será bom para a sua operadora, e ataca as cotas de programação no cabo.

O triple play entrou de vez no DNA da Net serviços. A maior operadora de TV por assinatura do país não se vê mais como tal, mas sim como uma empresa multisserviços. Tanto que, internamente, procura nem mesmo tratar os diferentes serviços, de voz, vídeo e dados, de forma isolada.
Em 2007, a MSO cresceu 16% na base de clientes de TV por assinatura, chegando a 2,457 milhões de assinantes (sem contar os 105 mil adquiridos da BigTV, que ainda não haviam sido consolidados). A base de assinantes de pacotes digitais passou a 604 mil. O serviço de acesso banda larga Vírtua atingiu 1,424 milhão de clientes em dezembro, o que significa um crescimento de 66% no ano, e o serviço Net Fone chegou a 567 mil clientes em 2007, um crescimento anual de 212%.
Na divulgação do balanço anual de 2007, a empresa revelou que investirá de R$ 500 milhões a R$ 550 milhões em 2008 diretamente relacionados à aquisição de novos clientes, e outros R$ 200 milhões para melhorias na rede.
Do ponto de vista financeiro, a Net Serviços fechou o ano com R$ 2,9 bilhões em receita líquida (28% de crescimento), R$ 3,7 bilhões de receita bruta, Ebitda de R$ 804 milhões (crescimento anual de 26%) e margem Ebitda de 28%. Entre as receitas da Net, destacam-se aquelas com novos serviços. A de pay-per-view, por exemplo, subiu 43,3%, passando de R$ 72,5 milhões para R$ 103,9 milhões. Já a despesa com programação foi de R$ 739,6 milhões, um crescimento de 20,1% em relação a R$ 615,5 milhões de 2006. Mas percentualmente as despesas de programação representam 25% das receitas líquidas da Net. No ano de 2007, o lucro líquido cresceu 150,5%, totalizando R$ 207,8 milhões.
A idéia agora é manter o ritmo de crescimento nos três serviços, como explica o CEO da empresa, José Felix, nesta entrevista exclusiva a TELA VIVA.
Ele fala ainda sobre a concorrência com a Telefônica, o novo DTH da Embratel e os impactos das cotas de programação no setor de TV paga.

TELA VIVA – Você participou do processo de reestruturação da empresa e assumiu o comando com uma situação de dívida equacionada. Qual a direção principal da Net agora?

JOSÉ FELIX – A direção é para o crescimento sustentado, e o momento é propício. Temos que acelerar ao máximo, temos espaço para crescer nos três produtos (vídeo, voz e dados). Mas o crescimento da base tem que trazer crescimento de receita.

Nos últimos anos, a banda larga vem puxando o crescimento da Net, mas que os demais serviços. Vão focar neste serviço em especial?

A gente tinha uma tendência de dividir os serviços, mas cada vez é mais difícil separar. Os três crescem, o que importa é a quantidade de domicílios conectados. A banda larga chama mais a atenção, mas tem crescido muito em função do triple play. É difícil, inclusive, separar a margem de cada serviço. Não damos importância a isso, o importante é o resultado final.

Como se buscará este crescimento? Expandindo a rede?

Não faremos investimento em crescimento da rede, o que há é um crescimento orgânico, natural da própria cidade.

Mas será feito um upgrade na rede existente?

Hoje, o que é construído já tem 1 GHz. Mas falar em melhoria da rede toda é complexo, a rede é a que existe. É mais adequado falar em como gerenciar esta rede. O aumento de banda virá principalmente com a liberação das faixas analógicas. As intervenções são locais, atacamos o problema onde ele existe, é uma coisa viva.

Em que ritmo está a digitalização dos assinantes e a adoção das caixas de alta definição? Há previsão para o fim dos canais analógicos?

O digital tem crescido bastante, mas sempre vai ter uma base analógica. Quanto ao HD, disponível só em São Paulo, tínhamos uma estimativa de demanda “chutada”, e as caixas se esgotaram rapidamente. Estamos recebendo mais caixas, e terminando os testes para habilitar o serviço de DVR. Este serviço será cobrado, já que estamos subsidiando a caixa (set-top box). Para a TV digital, a Net tem um projeto de DVR com HD, e não de HD com DVR...

A que você atribui o pouco interesse do público na TV digital terrestre?

Só posso dar minha opinião no processo: está acontecendo o que a maioria das pessoas falava. Lançaram uma coisa que já existia na TV paga, as pessoas já tem acesso ao digital, com DVD etc. Fizeram uma fumaça em cima de uma coisa que é uma troca de tecnologia. A Net espera o desenvolvimento dessa “coisa” ai.

O assinante da Net terá novos conteúdos em HD?

Hoje, além dos abertos, só a Globosat teve interesse, mas logo os outros programadores virão. Se tiverem esta iniciativa, será bem vinda. Quanto aos custos, a questão está no pioneirismo, em estar na frente. Nós investimos na caixa, no headend, liberamos freqüências. Nós é que estamos bancando este avanço. (N. da R.: pouco depois da entrevista, no final de março, a HBO anunciou que traria seus canais em HD para o Brasil).

Em relação ao serviços de banda larga, o que se pode esperar de inovação? Estão previstas a adoção do DOCSIS 3.0 e do FTTH (Fiber to the Home)?

Temos a obrigação de nos manter atualizados, então pesquisamos e testamos tudo. Mas em termos de mercado, não sentimos demanda para nada além do que já existe. Se precisar, podemos adotar amanhã ou depois.
Quanto à fibra, ninguém conhece esse mercado de “superusuários”. O que vão fazer com essa banda? É um número muito reduzido. Hoje, procuramos oferecer o que o assinante demanda.
Aliás, estamos indo no caminho inverso, com este pacote de R$ 39,90. Há um espaço enorme para crescer em cima de quem demanda acesso com velocidades baixas.

E quanto ao vídeo sobre IP (IPTV), é uma tendência para operadoras de cabo?

Hoje não é uma opção. Sai muito mais caro que transmitir em broadcast. Tenho a firme convicção de que podemos ser competitivos com o DVB-C por um longo tempo.

A Embratel, empresa do grupo Telmex, como a Net, está lançando um serviço de DTH. Como vocês vêem isso? Será um competidor, ou vocês trabalharão juntos?

Primeiro temos que conhecer o projeto... Por ser DTH, eles devem estar fazendo algo em nível nacional. A Net tem uma área de cobertura restrita, não está preocupada. Já sofremos uma severa concorrência de todos os lados, então este novo player pode ser até bom para nós. Só vem ajudar, criar mais mercado. Estou muito entusiasmado. Quanto à sinergia, estamos à disposição para contribuir...

E a Telefônica, tem sido um concorrente no serviço de pay TV?

Não tenho conhecimento. Eles entraram em São Paulo, podem estar tendo sucesso, mas não estou sabendo. É mais um concorrente.
A Net conhece o metiê, sabe o que faz. Não ganhou conhecimento da noite para o dia. Quem se mete a concorrer neste terreno tem que ser muito competente.

Qual sua avaliação sobre o PL 29, em discussão no Congresso, que impõe cotas de programação na TV paga?

Qualquer coisa imposta, que vá contra o sentido natural da evolução dos negócios, eu vejo com maus olhos. A Net tem clientes que todos os meses renovam sua assinatura porque estão satisfeitos com o que recebem. Somos portanto os maiores interessados em ter a melhor seleção de conteúdos. Então, não precisa de cotas. Essas coisas são sempre em cima da TV paga, e a gente já deu tudo: canais abertos, canais de uso obrigatório, do governo, cabo grátis nas escolas. Deveria haver um limite, a rede custou dinheiro, e alguém pagou por isso. É fazer cumprimento com o chapéu dos outros.

E em relação aos canais que alegam ter dificuldades de distribuição nas redes a cabo?

Cada caso é um caso, não se pode generalizar. Na TV aberta eles enchem o espaço com um monte de coisas, porque não tem programação.

Por que não entram aí os independentes?

Em relação aos canais, tem canal que até de graça seria ruim.
Já passamos aquela fase do “lixo satelital” do começo da indústria. Tinha muita queixa, fizemos uma limpeza. Hoje restam os canais que têm algum tipo de apelo.
Na TV paga, alguém paga. Cabe ao distribuidor elencar o que é bom e o que é ruim.

Mas há canais, como os de vendas, que pagam para entrar na grade. Como eles atendem esse interesse do assinante?

Quando se faz um business plan, se faz um leque de alternativas de receitas. Toda receita que ajude a prestar um serviço melhor é bem-vinda. Não critico isso, mas sim a obrigatoriedade de pagar pelo que você não vê valor, que é só custo.
Eu não pagaria pelos canais de venda, mas tem quem goste, não dá pra generalizar.