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tv digital
Só o começo
André Mermelstein e Fernando Lauterjung*
A definição de um padrão que atende ao gosto dos radiodifusores e o início das transmissões em São Paulo não deixou as emissoras com a sensação de que a missão foi cumprida. Pelo contrário, passados os dez anos de discussão com representantes de diferentes padrões internacionais, com a academia e com o governo, os radiodifusores têm a missão de difundir o sistema digital no país.
O que se apurou junto a emissoras regionais, é que grande parte tem intenção de iniciar as transmissões antes do cronograma definido pelo Ministério das Comunicações, que determina que até o dia 31 de dezembro de 2009 a transmissão digital deve chegar a todas as capitais brasileiras; e até 31
de dezembro de 2013, a todos
os municípios.
“Se eu lançar em janeiro de 2009, vai custar 50% mais caro”, explica Antonio Paoli, responsável pela engenharia da TV Bahia, afiliada da Globo. Paoli se refere à isenção fiscal para a compra de equipamentos, que vale para produtos desembaraçados até o final de 2008. A diferença de preço, por conta da incidência de impostos em cascata, é de 50% a 60%. “A razão principal para adiantar as transmissões é esta”, diz o engenheiro, que quer iniciar as transmissões digitais em Salvador até dezembro de 2008.
Para as cinco emissoras do interior do Estado, a TV Bahia espera terminar a transição até 2011, dois anos antes do prazo legal. Duas devem ser digitalizadas em 2009, outras duas em 2010 e a última em 2011. “Não teremos mais a isenção fiscal, mas até lá os transmissores nacionais já terão uma base instalada mais significativa, gerando parâmetros para a engenharia poder trabalhar”, explica.
O SBT de Ribeirão Preto pretende seguir o cronograma e implantar a TV digital a partir de 2009, a não ser que as outras redes antecipem o prazo, o que os forçaria a antecipar também, conta Miguel Ângelo Miranda, coordenador técnico da emissora, no interior de São Paulo. A empresa, como as demais afiliadas, conta com suporte técnico e financeiro do SBT.
É evidente que a decisão de adiantar ou não as transmissões digitais é econômica, e envolve a capacidade de investimentos em curto prazo. O investimento da TV Bahia em Salvador neste primeiro momento, por exemplo, é de cerca de R$ 3,5 milhões. Outro ponto, também econômico, que Paoli aponta como decisivo para adiantar o início das transmissões digitais, é garantir que o período de transição não seja alongado. “Manter os dois sistemas simultaneamente tem um custo altíssimo, além de um desgaste muito grande”, explica. “Para nós, quanto mais rápida a transição, melhor”, garante.
Para Miguel Ângelo Miranda,
a digitalização deve trazer, no futuro um ganho para as emissoras Só a economia de energia já é significativa, pois com um transmissor de 2,5 kW conseguirá uma cobertura melhor da que tem hoje com um de 10 kW. Mesmo assim, é difícil ver valor agregado à alta definição em um curto prazo. “Tenho acompanhado bem a transição em São Paulo, mas nas regionais está muito obscuro”, conta Miranda. Mesmo as vantagens da TV digital não são percebidas da mesma forma por quem está em cidades menores.
A mobilidade, por exemplo, não é um grande diferencial em Ribeirão Preto (600 mil habitantes). “No horário de pico do trânsito, levo dez minutos no carro para ir para casa. Mesmo nos ônibus, as viagens são muito mais curtas que em São Paulo, por exemplo. Então aqui não existe tanto esta necessidade
de ter a TV móvel nestes períodos”, conta Miranda.
Ao contrário do que acontece com as afiliadas do SBT, as afiliadas da Globo não recebem suporte financeiro da cabeça de rede. “As afiliadas da Globo são empresas independentes e devem tomar suas próprias decisões”, diz por e-mail a diretora de engenharia de telecomunicações da TV Globo, Liliana Nakonechnyj. Além disso, “as afiliadas são soberanas para decidir quanto aos seus cronogramas de lançamento da TV digital. Mas estão comprometidas com a transição e certamente começarão a transmitir nas principais cidades ao longo do próximo triênio”, completa Liliana.
Paoli, da TV Bahia, diz que, “é cada um por si”, lembrando que é de interesse da afiliada que a transição acabe logo, para acabar também o custo de manter dois sistemas funcionando. Embora não haja um aporte financeiro, o engenheiro diz que há um incentivo informal por parte da cabeça-de-rede para que as afiliadas façam a digitalização. Principalmente nas decisões da engenharia. “Eles já testaram vários equipamentos. É claro que acabamos nos beneficiando destes testes”, diz.
A engenheira Liliana explica que “a Globo tem compartilhado com as afiliadas o conhecimento tecnológico que vem adquirindo e desenvolvendo, bem como as experiências com as primeiras transmissões, de São Paulo,
através de encontros periódicos com os executivos e líderes das áreas técnicas”.
Regional vs. nacional
Nas regionais há questões que as cidades grandes não enfrentam, como o caso das cidades adjacentes, em geral de menor porte. Além da transmissão na cidade principal, a emissora tem que enviar o sinal por microondas às cidades vizinhas, o que representa um custo adicional. “Quando essa população vizinha vir que já temos a alta definição, vai querer também, e temos que atender (mesmo fora do cronograma)”, explica Miguel Ângelo Miranda, do SBT de Ribeirão Preto, lembrando que o custo para as emissoras pequenas não é muito diferente que o custo para as grandes, pois têm que trocar switcher, transmissor etc. “Ajudaria se pudéssemos obter um canal SFM. Assim poderíamos ter um canal único em toda a rodovia, para retransmitir no mesmo canal daqui até as cidades próximas”, conta Miranda.
A TV Bahia, além das cinco emissoras no interior do Estado, conta com repetidoras em localidades não cobertas pelas seis emissoras da rede. Para enviar o conteúdo, usa a transmissão por satélite. “Hoje, consigo mexer na compressão do vídeo e preciso de uma banda de cerca de 6 Mbps”, explica Paoli. Mas, segundo o engenheiro, não faz sentido montar uma infra-estrutura com encoders de áudio e vídeo em cada repetidora. “Terei que enviar o pacote ISDB, com o vídeo, os diferentes canais de áudio e dados embutidos. Vamos ficar presos aos 20 Mbps”, explica. Assim, a repetidora precisaria apenas de um modulador COFDM e um transmissor. Mas aí, surge um novo problema: “não existe ainda uma tecnologia que permita o envio do sinal ISDB, mas alguns fornecedores já trabalham nisso”.
Um dos receios das regionais tem sido a questão do satélite, revela Miranda. “Temos visto notícias de emissoras que querem transmitir em alta definição nas parabólicas. Se isso acontecer, será muito ruim para as emissoras regionais, porque vivemos da publicidade local”, resume. Há o problema, por exemplo, das prefeituras de cidades pequenas que retransmitem os sinais broadcast. O temor é que, uma vez que recebam sinais em HD diretamente por satélite, deixem de transmitir os sinais regionais, prejudicando a cobertura das redes.
Miranda se refere ao projeto encampado pela RedeTV! e pela Band. As duas cabeças-de-rede querem levar seus sinais em alta definição aos telespectadores que usam as cerca de 20 milhões de antenas parabólicas de banda C. Em novembro, as duas emissoras fizeram uma apresentação ao ministro das Comunicações, Hélio Costa, dos testes desenvolvidos para transmissão HDTV via satélite. Para ter acesso ao conteúdo, caso as redes comecem a transmitir definitivamente, os usuários das parabólicas terão de comprar um receptor específico, que, segundo as emissoras, já conta com fabricantes interessados. A demonstração ao ministro foi feita com um televisor full HD, utilizando a resolução máxima possível de 1920 x 1080 linhas.
Com o novo conversor, o sinal digital poderá chegar às residências com parabólicas antes mesmo da conclusão do cronograma oficial de implantação da TV digital terrestre em todo o país. Vale destacar que o padrão de transmissão via satélite não é o mesmo para a transmissão terrestre.
No satélite utiliza-se o padrão ISDB-S e o
DVB-S2 (para a transmissão às afiliadas).
SD e HD
Embora muitos radiodifusores mostrem a vontade de adiantar as transmissões digitais, a produção deve levar mais tempo para ser feita em alta definição. “No momento, é mais importante que todos conheçam os aspectos de transmissão do que os de produção, para facilitar a expansão das transmissões digitais ao longo dos próximos anos. A produção de programas locais em HDTV deverá vir numa segunda etapa”, diz Liliana Nakonechnyj, da TV Globo.
No caso da TV Bahia, a idéia é ter um master “vazando” a programação em alta definição da rede e encaixando os comerciais locais, que já poderão ser em HD. Já o conteúdo local deve continuar SD por algum tempo. “Nossa produção já é toda digital e algumas ilhas terão um upgrade de software para trabalhar em HD”, diz Paoli. Porém, no que se refere à produção, a meta agora é implantar um sistema de produção sem fita, que comporte alta definição, mas com câmeras SD. A aquisição em alta definição deve ficar para um segundo momento. “Trabalhamos com um orçamento de R$ 22 milhões para montar o sistema sem fita, usando câmeras com gravação em estado sólido”, diz. A produção em alta definição deve começar, pelo menos em Salvador, no final de 2009.
Em relação à publicidade, Paoli não acredita que poderá repassar os investimentos na transmissão digital e na produção HD. “Você tem que ver o custo que teremos
na transição para o HD, o
mercado publicitário também
terá para produzir em alta definição”, explica.
Como o mercado publicitário entregará os comerciais no período de transição, com os sistemas analógico SD e digital HD trabalhando simultaneamente, também é uma nebulosa. Dependendo do tipo de material que receber, a emissora pode ter que fazer duas transmissões diferentes do mesmo comercial,
em alta e baixa definição. Fazer o upconvert ou downconvert do material ou ainda adaptar o formato o material (4:3 ou 16:9)
é algo controverso.
Para Paoli, o mercado publicitário terá que fazer dois filmes, um em alta e outro em baixa definição. “O material pode ser todo captado em HD, mas não dá para finalizar para a TV digital em alta definição e simplesmente fazer um downconversion”. Isto porque um sistema usa áudio 5.1 e o outro é estéreo, é preciso decidir se a versão SD terá letterbox ou será cortada, etc. “Eu não posso tomar estas decisões pelo anunciante. É algo que terá que ser resolvido entre a agência, a produtora e o próprio anunciante”, completa. Para o engenheiro, este tipo de questão só estará resolvida quando
houver o switch off (desligamento) da TV analógica. “Só então teremos a sensação de missão cumprida”, finaliza.

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