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cinema
A vez dos “amadores”
Lizandra de Almeida
Com um crescimento expressivo em termos de quantidade e organização, os cineclubes se espalham por todo o Brasil e garantem reconhecimento institucional.
Em novembro do ano passado, uma pesquisa no site do Conselho Nacional de Cineclubes (CNC) revelava a existência de cerca de 50 entidades associadas. Hoje, um ano depois, o mesmo site lista mais de 380. “E tenho certeza de que existe pelo menos o dobro”, afirma o presidente do CNC, Antonio Claudino de Jesus. “Também estamos nos reestruturando e ainda não temos pernas para cadastrar todo o mundo, mas tenho certeza de que são mais de 600.”
Essa movimentação não começou agora, mas teve no segundo semestre de 2007 seu momento marcante. Em outubro, a Agência Nacional do Cinema (Ancine) publicou a Instrução Normativa nº 63, que “define cineclubes, estabelece normas para o seu registro facultativo e dá outras providências”. A normativa preenche o vazio institucional que se instaurou com a extinção do Conselho Nacional de Cinema (Concine), em 1990, pelo presidente Fernando Collor. “Uma das missões que Orlando Senna e eu tínhamos quando entramos na Secretaria do Audiovisual era a de reforçar esse circuito cultural”, diz Leopoldo Nunes, que foi o principal articulador da IN 63 quando era diretor da Ancine. “Nossa convicção era a de que precisávamos definir o que é o não-comercial. Quando um produto é comercial, segue seu ciclo econômico. O não-comercial é cultural, então é eterno.”
“Aconteceram três coisas simultâneas: a normativa, nossa posse na SAV e nossa pré-jornada”, explica Claudino. Ainda em outubro, o CNC tomou posse como uma das entidades da Secretaria do Audiovisual (SAV), ganhando reconhecimento oficial. “A consulta pública da normativa nos deu a oportunidade de mostrar nossa mobilização. Em geral, organizamos uma pré-jornada do CNC com os diretores e conselhos regionais, para definir a jornada. Este ano, reunimos representantes de 70 cineclubes
na pré-jornada, pessoas que já
estavam mobilizadas por causa da consulta pública.”
Para Felipe Macedo, conselheiro do CNC e um dos mais atuantes cineclubistas brasileiros – à frente de projetos como os paulistanos Cineclube do Bexiga e Elétrico, muito atuantes na década de 1980 – “a instrução normatiza pouco, mas reconhece oficialmente os cineclubes como instituições sem fins lucrativos”. Ele acredita que a não-obrigatoriedade de registro prevista pela normativa é muito positiva, diante da diversidade de iniciativas que podem ser definidas como cineclube. “A não-obrigatoriedade é importante por reconhecer a informalidade desse tipo de ação”, completa.
Muito intenso entre as décadas de 1960 e 80, o movimento cineclubista foi perdendo a força depois do desmonte promovido pelo governo Collor. “Os cineclubes estão sempre nascendo e morrendo, mas o movimento ficou muito desorganizado com a globalização e a mudança de paradigma tecnológico”, acredita Macedo. “As cópias 35 mm eram caríssimas e todo o acervo de 16 mm ficou preso com o fim da Embrafilme. Surgiu o VHS, mas não era uma bitola boa para exibição”, conta Fernando Kaxassa, presidente do Cineclube Cauim, um dos mais antigos cineclubes brasileiros, dos poucos que resistiu a esse período e ainda em funcionamento (veja Box).
Ações federais
A reestruturação começou a partir de 2003, com a articulação de Leopoldo Nunes. Ele buscou as principais lideranças e deu início às discussões e a projetos que hoje estão se consolidando. “Fizemos um congresso estimulado pelo Leopoldo e fomos reorganizando. Hoje o Claudino está em seu segundo mandato e conseguimos reforçar nosso diálogo com o Estado”, diz Macedo.
O apoio institucional ao movimento cineclubista veio junto com outras iniciativas da SAV. A primeira foi o lançamento do edital de pontos de difusão digital, em julho de 2006, definidos como “entidades públicas e privadas sem fins lucrativos com atividade de exibição e formação de público”. Os cem pontos selecionados receberam do governo equipamentos de exibição. Em contrapartida, se comprometem a montar uma sala para um mínimo de 80 lugares e garantir público espectador nas sessões. O critério para a escolha dos pontos foi, em primeiro lugar, a carência de acesso ao audiovisual.
No ano passado também foi lançada a Programadora Brasil, um projeto de difusão do cinema brasileiro para esse circuito independente e sem fins lucrativos. A Programadora Brasil vende DVDs a preço de custo, garantindo a remuneração dos realizadores. “Precisávamos garantir um acervo para esse circuito exibidor”, diz Nunes.
O movimento agora conta também com o apoio de outras entidades de cinema, como as ABDs, que reúnem documentaristas e curta-metragistas, e o Congresso Brasileiro de Cinema (CBC). “Também estamos fazendo um trabalho casado com o Fórum de Festivais. Já fizemos palestras sobre a montagem de cineclubes em mais de dez festivais”, completa Claudino. “Nosso diálogo com o Estado está se ampliando, mas não só com o governo federal. Estamos procurando parcerias nos Estados, mas são poucos que têm alguma abertura. Ainda há muita incompreensão do que seja cineclube, apesar de ser uma instituição conhecida no mundo inteiro, um termo compreendido em várias línguas, como ‘hotel’”, diz Macedo.
“Estamos conseguindo organizar mostras em todo o país, envolvendo vários cineclubes. Em novembro, organizamos, a pedido do Instituto Palmares, a mostra AfroOlhar, com cinco programas que foram exibidos em 50 cineclubes, durante cinco dias, em diversos Estados. Tivemos uma pronta resposta. A intenção é que essa mostra aconteça duas vezes por ano a partir de agora”, explica Claudino.
| HISTÓRIA DE FORMAÇÃO |
Os cineclubes foram a base da formação de muitas pessoas que hoje trabalham com cinema. O próprio Leopoldo Nunes, hoje diretor de programação e conteúdo da Empresa Brasil de Comunicação (a TV Brasil) é “cria” do Cineclube Caium, de Ribeirão Preto, um dos mais antigos ainda em funcionamento.
O Cineclube Cauim foi fundado em 1979 por Fernando Kaxassa, que ainda preside o que hoje é uma rede de ações culturais e educativas na região. “Começamos carregando o projetor 16 mm nas costas, indo nas escolas, passando filmes que não passavam nos cinemas na época da ditadura”, conta. Hoje, o Cauim tem uma sala de 800 lugares no centro de Ribeirão Preto. Seu principal objetivo é dar acesso a quem não tem condições de ir ao cinema. “Recebemos todos os dias 4 mil alunos e 99% das nossas sessões são de graça”, diz Kaxassa.
Durante o período de crise pós-Collor, o cineclube se manteve em uma sede menor, no bairro de Vila Virgínia, onde já mantinha um projeto social que hoje ainda persiste. “Não havia mais como trazer cópias 35 mm. O DVD ainda nem estava começando, então começamos a fazer programas de televisão e de rádio. Há cinco anos, tivemos a oportunidade de assumir essa sala, que já era uma sala de cinema. Como foi construída em formato stadium, ficava difícil alugar o prédio para um supermercado. O proprietário acabou alugando para uma igreja, mas eles queriam comprar e ele não queria vender. Acabamos conseguindo alugar a sala e ampliar nosso projeto”, continua. “Hoje todos os alunos da rede pública de Ribeirão Preto já foram ao cinema. Fazemos um rodízio, mas levamos todas as escolas. E como também promovemos oficinas de vídeo nas escolas, eles estão assistindo uns os vídeos dos outros.”
Além da sala de exibição, que exibe principalmente filmes nacionais, mas também alguns blockbusters a preços populares, o Cauim mantém uma banda, vários espaços culturais com atividades como circo e teatro e o que mais aparecer. Sem cobrar ingresso, a manutenção vem de várias fontes. “A gente faz de tudo, desde vender rifa até inscrever projetos nas leis de incentivo”, brinca. |
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