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DEZEMBRO 2007 - Nº 178 ÍNDICE

animação

Mônica, cidadã do mundo

Humberto Costa

Embalado pelo projeto de internacionalizar a Turma da Mônica, o estúdio Mauricio de Sousa descentraliza o modelo de produção. Com parceiros brasileiros, o objetivo é acelerar a finalização de novos títulos para TV e cinema.

Uma história que não está no gibi. A mais famosa personagem de Mauricio de Sousa empunha seu indefectível coelho e mira o mundo. Desenhos animados da Turma da Mônica já são exibidos em quase toda a América Latina pelo canal Boomerang, da programadora Turner Broadcasting System. Na Itália, “a turminha está abafando”, como gosta de dizer o criador da série, Mauricio de Sousa. A animação genuinamente brasileira já obteve na Rai Due, um dos canais da TV estatal italiana, índices de audiência superiores aos dos “Simpsons”. A China, o país que mais cresce e deve se tornar nos próximos anos a maior economia do planeta, também está na pauta de exportações. “Temos em estudo um projeto educacional sensacional a ser realizado com uma empresa contratada pelo governo chinês para produzir conteúdo de alto nível para escolas, para o que chamaríamos de pré-escola no Brasil. E já estamos produzindo para eles material para a web”, revela Mauricio de Sousa.

Os números não são revelados, mas a animação é hoje o principal investimento da Mauricio de Sousa Produções (o restante do negócio abrange histórias em quadrinhos em jornais, revistas e licenciamento de produtos). “As contas sobre o retorno estão sendo montadas, com muito otimismo”. Do escritório em Nova York é arquitetado o pulo do gato para que a Mônica ganhe voz nas mais diferentes línguas. Uma diretoria internacional articula o trabalho de agentes espalhados por vários países. “Estamos criando condições para que nossos personagens se tornem mais conhecidos. Não somente na área comercial, mas também na área de serviços sociais. Para tanto estamos apressando a produção de nossos desenhos animados”, aponta Mauricio, tocando no ponto crucial do plano, pisar fundo no acelerador para produzir mais.

Tudo o que é exibido da “turminha” mundo afora hoje é material de acervo reaproveitado, que foi pinçado de longas metragens produzidos nos últimos anos. As prateleiras estão vazias e é preciso fazer frente a crescente demanda internacional. Mauricio de Sousa mantinha e concentrava toda a produção debaixo da mesma estrutura, mas resolveu mudar, escolheu a terceirização. “Fazer animação é caro e exige constante investimento em arte e tecnologia. Tive que encontrar um caminho mais rápido e viável para aumentar a produção, principalmente para a televisão. Optei, então, ficar com o lado da arte, da criação, do conteúdo e fazer parcerias com estúdios que já estivessem focados, principalmente, na parte tecnológica, que dominem a animação tradicional e em 3D”.
Das quatro frentes de produção tocadas, apenas a terceira edição do “CineGibi”, filme de uma hora de duração para televisão e DVD, é feita na estrutura dos estúdios Mauricio de Sousa, em São Paulo.

O primeiro rebento da nova fase foi o filme “A Turma da Mônica em Uma Aventura no Tempo”, produzido pela carioca Labo Cine em associação com os estúdios Buena Vista Internacional e o produtor brasileiro Diler Trindade. O longa foi lançado em fevereiro e tornou-se a quarta maior bilheteria entre as produções nacionais. É também a animação brasileira mais vista este ano por aqui. “Ao contrário dos nossos filmes anteriores, este foi produzido em cima de uma história só. Tem uma bela mistura de técnicas de animação. Abusamos de efeitos 3D, animação tradicional e até pitadas de Flash”, descreve Mauricio.

O namoro com o novo parceiro começou quando o pessoal da Labo Cine finalizava o primeiro grande trabalho há dois anos, o desenho animado em longa metragem inspirado na outrora chamada “Rainha dos Baixinhos”, “Xuxinha e Guto contra os Monstros do Espaço”. “Fiquei admirado com a qualidade do material e com o potencial que sentia ali para um trabalho com os nossos personagens”. “O Mauricio gostou do nosso método de produção. Está sendo mesmo uma grande parceria”, afirma Clewerson Saremba, diretor-geral da Labo Cine, que se auto-intitula o maior estúdio brasileiro de animação.

O desenvolvimento de cada projeto segue o mesmo fluxo. A Labo Cine recebe um pacote de criação dos estúdios Mauricio de Sousa com o argumento, estudo de personagens e cenários, e criações musicais. É o pontapé inicial do trabalho. “O Maurício escolhe as histórias dos gibis e nós adaptamos com o nosso roteirista, o Stil, para ficar com linguagem de animação”, conta Clewerson. Mauricio de Sousa acompanha cada fase da produção. Clewerson acredita que a distância entre Rio e São Paulo não atrapalha. “Criamos eficientes canais de comunicação entre as duas empresas. Trocamos informações por e-mail, telefone e são agendadas visitas do Mauricio e da equipe dele aqui no estúdio para aprovação e acompanhamento”. O pai da “Turma da Mônica” bate na tecla da afinação. “É preciso falar a mesma língua no conteúdo, na arte e na tecnologia”.

Cinqüenta pessoas da Labo Cine trabalham diretamente na produção de uma série de TV da “Turma da Mônica”. A primeira fase compreende treze filmes de sete minutos de duração cada. “Será bem divertida, com muita agilidade de animação e conteúdo”, adianta Clewerson. São profissionais que cuidam da animação em 2D e das modelagens em 3D, dos cenários, storyboards, montagem, finalização e direção. “Cada setor está bem dividido e tem seu próprio coordenador. Trabalhamos como uma linha de montagem. Um depende do trabalho do outro para ser concluído na edição final”, detalha.

Realizar um sonho antigo fez Mauricio de Sousa correr atrás do segundo parceiro. O escolhido foi a auto-denominada “boutique de conteúdo” Digital 21, e a missão é fazer um filme cujo personagem central é o simpático dinossauro Horácio. “A Digital 21 é uma produtora de filmes, principalmente comerciais, de altíssimo nível, a maioria em computação gráfica, que é a técnica que eu planejava usar. O longa será altamente sofisticado, dirigido ao mercado mundial e deve ficar pronto em cerca de dois anos”, conta Mauricio.

O ambicioso projeto vai exigir importação de mão de obra. Ao longo do período de produção serão 120 pessoas entre artistas e técnicos brasileiros, americanos, canadenses e europeus empenhados em dar vida animada ao Horácio. “O filme está sendo realizado com o que há de mais avançado em termos de animação 3D. Ele tem uma característica específica que é a estética do Mauricio o que o torna diferente do que já foi produzido. A Turma da Mônica é um produto global, eu sou fascinado pelos personagens”, confessa Rodolfo Patrocínio, diretor da Digital 21.

Esquema de trabalho semelhante foi o adotado para colocar em pé a série de TV do fantasma “Penadinho”. Em relação ao filme, envolve uma equipe mais enxuta, que inclui também grupos de artistas independentes e parcerias com outras produtoras internacionais. “Penadinho vai trazer um jeito diferenciado de desenho animado para TV. É feito com várias técnicas e tendências de animação”, revela Rodolfo.

Para os brasileiros

O mercado internacional de animação é cheio de oportunidades, e em expansão permanente. O desafio é fazer um produto competitivo. Desenho animado de qualidade tem custo elevado em qualquer parte do planeta. Quem é do meio afirma que é uma conta difícil de fazer, principalmente quando os co-produtores são os produtores de imagem. Outro complicador é que as referências vêm dos filmes publicitários. Rodolfo Patrocínio dá um giro pelo planeta para estabelecer paralelos. “Os Estados Unidos estão buscando alternativa no exterior para reduzir os orçamentos. Na China é uma miséria que não vale nem a pena falar. Acredito que o Brasil já cobre metade do pedido pelos produtores americanos. Mas eu pergunto, de quantos longas você tem notícia no Brasil que são produzidos em escala de primeiro mundo?”

A Labo Cine também atende a TV Globo e a Warner Bros., entre outros clientes de peso. O diretor-geral da produtora coloca tudo na ponta do lápis, e vê um bom caminho a ser seguido. “Acho que já estamos com preços bem compatíveis com todo o mercado mundial. Outros países já olham o Brasil de forma interessante. Estamos aprendendo como funciona o mercado internacional de animação e estamos tentando entrar lá fora”, revela os planos expansionistas Clewerson Saremba.

Apesar da pretensão de fincar o traço verde-amarelo no mercado global, os estúdios brasileiros esbarram na falta de mão-de-obra. “O que mais pesa são os gastos com tecnologia e preparo de pessoal especializado”, faz as contas Mauricio de Sousa, que não descarta também buscar parceiros no exterior.

É reconhecido que o Brasil tem uma boa safra de animadores, mas ainda é pouco. “O que falta mesmo são mais escolas e cursos de animação que ensinem coisas para valer com visão profissional. Nós treinamos e formamos a maioria dos nossos profissionais. Temos um método bem diferenciado. Já estamos pensando em montar um curso para absorvermos a mão de obra desejada”, diz Clewerson.

Se o futuro parece ser tão promissor para os desenhos da “Turma da Mônica” e outras criações made in Brazil, por que a criação máxima de Mauricio de Sousa não está na TV aberta brasileira? Sabe-se que existem negociações para exibição da nova safra. O nó da questão é ter escala para achatar os custos. “Os desenhos teriam que ser vendidos simultaneamente em diversos países para se pagarem, como acontece com outras séries internacionais. Este é o processo que estou perseguindo. Quero ter condições de vender nossas séries por preços internacionais, ou não teremos a Mônica na TV brasileira”, desabafa Mauricio. Os parceiros têm uma visão mais otimista. “Vai emplacar! Acho que agora é o melhor momento para isso acontecer. O mercado brasileiro demorou a aceitar a animação feita por aqui. Isso dificultou a exibição no passado. Os tempos mudaram e o público também. A Turma da Mônica acompanhou esta mudança”, acredita Clewerson.“O Mauricio tem muitos personagens, dá para agradar qualquer público”, define Rodolfo.

Para quebrar o tabu de não estar acessível ao telespectador brasileiro, o maior contador de histórias em quadrinhos do país flerta com o governo Lula. “Outro caminho seria o subsídio governamental. Um banco, o Ministério da Cultura, ou da Educação. Mas é um caminho tortuoso, cheio de meandros políticos. E talvez de cobranças que não me agradam”. Mauricio de Sousa pensa até em um novo produto. “Algo tipo um Vila Sésamo caboclo, dirigido à criançada em fase de alfabetização. Este projeto tem sido discutido em alto nível e tem alguma chance de avançar. Conta com entusiasmo até mesmo do presidente Lula”. Seria um programa para a TV Brasil, a emissora estatal que estreou no início de dezembro com uma grade improvisada e cheia de buracos?
O tempo dirá.

Mesmo cansado do que chama de descaminhos econômicos e políticos, o desenhista não desiste de sua maior ambição, ver os personagens que criou desabrocharem mundo afora. Mas não deixa de manifestar um certo pesar. “Temos tanta história linda para contar e cantar que
uma só vida será pouca para tanto. Mas comecemos.”

CHICO BENTO EM MANDARIM

A Turma da Mônica tem uma grande diversidade de personagens, alguns com forte apelo regional, como o caipira Chico Bento. A graça do Cebolinha é trocar o “R” pelo “L”. Imagine embalar este conteúdo para o mercado externo, sem distorcer o original. “O importante é passar uma mensagem que todos compreendam. Dependendo do país, fazemos algumas adaptações”, afirma o diretor-geral da Labo Cine, Clewerson Saremba.

O que importa mesmo na hora exportar o conteúdo da “turminha” é encontrar o equilíbrio. “Há um cuidado maior para que as versões de nossas histórias, do nosso conteúdo filosófico, das mensagens, sejam alvo da melhor das versões. Com todo respeito às culturas locais”, define Mauricio de Sousa e ressalta:”Os filmes são exibidos da maneira como criamos no Brasil”.