Editorial
Novela ou Orkut?
André Mermelstein
Chamou a atenção, no início de outubro, uma declaração na Folha de S.Paulo do autor da recém-estreada novela das 21h da TV Globo, Aguinaldo Silva. O autor atribuía o começo fraco da novela (para os padrões globais) à migração de espectadores não para outros programas, mas para a Internet, ou mais especificamente para o Orkut. Há algum exagero na afirmação, pois a TV concorre também com outras mídias mais populares que a Internet, como o DVD, sobretudo graças à “alternativa” pirata dos filmes de sucesso a R$ 5 no camelô. Além disso, há o “efeito luto”, pelo qual os espectadores demoram a se desligar da novela anterior e “engatar” na próxima trama.
Consultado por TELA VIVA, o diretor do Ibope Mídia, Antonio Ricardo Ferreira, afirma que o percentual de TVs ligados na Grande São Paulo não variou muito nos últimos anos. O tempo médio de audiência também não sofreu grandes variações, e não se percebe nenhuma grande tendência de queda ou aumento.
Mas de alguma forma a percepção do experiente autor vai no caminho certo.
Se ainda é difícil falar em uma migração em massa do público para mídias alternativas, percebe-se que a fragmentação dos veículos é uma realidade presente, em maior ou menor escala dependendo da penetração de recursos como o DVD, os MP4 players, o computador e a banda larga em cada país. E o dia das pessoas continua com 24 horas, de modo que para usar as novas tecnologias, elas têm que deixar de fazer algo, como ver televisão. No Brasil, serão vendidos este ano 10 milhões de computadores. Pela primeira vez, a venda de PCs ultrapassou a de televisores no país, e já são mais de 110 milhões de celulares, que cada vez mais fazem coisas além de falar.
O fato é que, atentos a esta tendência, os atores da cadeia de produção e distribuição de conteúdos começam a se movimentar para ocupar seus espaços neste universo, como se vê na matéria de capa desta edição. Os grandes estúdios, preocupados em não ter o mesmo destino das gravadoras de música, apostam na oferta de vídeos online. Os broadcasters criaram portais de vídeo para exibir seus programas na íntegra. Os produtores começam a explorar novos canais de distribuição.
Tudo isso porque acreditam que, cedo ou tarde,
Aguinaldo terá razão. |