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OUTUBRO 2007 - Nº 176 ÍNDICE

cinema

Hora das finanças

Fernando Lauterjung

Festival do Rio reuniu investidores, governo e indústria cinematográfica para discutir os modelos de financiamento à produção, distribuição e exibição de filmes.

Os mecanismos de investimento que se colocam como uma alternativa mais alinhada ao desenvolvimento do cinema e do audiovisual como indústria foram debatidos à exaustão no Rio Seminars, evento que faz parte do Festival do Rio e aconteceu no final de setembro, no Rio de Janeiro.
O Banco Nacional do Desenvolvimento Social e Econômico (BNDES) e gestores de fundos expuseram estes mecanismos retornáveis. Trata-se de uma nova fase para o cinema nacional, na qual produtores passam a buscar parceiros interessados no retorno financeiro, e não no marketing cultural.

Nos debates de corredor, ainda mais acalorados que os debates formais, alguns apontam estes mecanismos, mais especificamente o Procult e os Funcines, como mais uma barreira na corrida de obstáculos para fechar a equação financeira de um projeto audiovisual. Para os que seguem esta visão, será difícil o produtor ser devidamente remunerado pelo seu filme tendo um share menor nas receitas em bilheteria ou venda para outras janelas e territórios. No outro lado do embate estão os que defendem que os projetos devem começar a ser mais “alinhados ao gosto do público”, tendo um compromisso maior com a receita que o filme pode ter. Contudo, ambos acreditam que o subsídio estatal é fundamental para a continuidade da produção cinematográfica. “No Brasil, na França, na Inglaterra e em qualquer outro país, a maioria dos filmes daria prejuízo sem a ajuda dos incentivos”, disse Thierry Peronne, da Investimage e gestor do Funcine da Rio Bravo. Contudo, é preciso “uma reflexão sobre o que o público quer ver e trabalhar para o público”, alertou Peronne.

O aumento do incentivo fiscal para investimento em Funcines, que agora é de 100%, parece ter agitado o setor financeiro, trazendo novos investidores para o cinema e o audiovisual. Além do único Funcine em operação, o RB I, da Rio Bravo, novos gestores começam a formar seus fundos. Segundo a chefe do Departamento de Economia da Cultura do BNDES, Luciane Gorgulho, o banco aumentou de R$ 10 milhões para R$ 25 milhões o orçamento destinado a investimento em Funcines. E a tendência é que o valor aumente no próximo ano. Luciane anunciou ainda o investimento de R$ 8 milhões em novo fundo operado pela Lacan em parceria com a distribuidora Downtown.

Diferentes fundos, com características diferentes na política de investimento, devem começar a operar ainda este ano. Entre eles destaca-se o da DGF Investimentos. Segundo Eduardo Pamplona, sócio da empresa, o fundo pretende operar investimentos na área de infra-estrutura. “Não pretendemos investir em projetos de filmes ou distribuição. Daremos preferência a investimentos em produtoras, estúdios e possivelmente em exibição digital”, destaca. A idéia, segundo ele, é captar entre R$ 30 milhões e R$ 50 milhões para o fundo. “Queremos lançar um fundo destes por ano, chegando a um capital de R$ 200 milhões em quatro anos”, explica.

Luciane Gorgulho voltou a apresentar os programas do BNDES voltados ao audiovisual. O Procult, que tem R$ 175 milhões para investimento em cinema, tem aprovadas até o momento apenas três operações: uma na área de infra-estrutura, no valor de R$ 7 milhões; outra em produção, de R$ 1 milhão; e uma em exibição, de R$ 2 milhões. Outras 20 operações estão em análise. Embora tenha desembolsado uma pequena fatia do valor destinado ao programa, o Departamento de Cultura, segundo Luciane, já trabalha com a hipótese de ter de pedir o aumento da verba total para o Procult.

Distribuição

A parceria entre Lacan e Downtown Filmes foi a mais comemorada no evento. Em primeiro lugar, porque foi anunciado o investimento do BNDES. Além disso, a parceria entre fundo incentivado e distribuidora independente criará, conforme explica Bruno Wainer, da Downtown, uma alternativa ao Artigo 3º, mecanismo que dá incentivo fiscal para que as majors invistam em co-produção com produtoras brasileiras. “Finalmente terei isonomia para competir com as majors na aquisição de direitos de distribuição”, explica. Wainer diz que pretende atuar distribuindo exclusivamente filmes brasileiros, usando o dinheiro do fundo para comprar o direito de distribuição, comprando ainda participação nos filmes.

Já o fundo passará a receber parte da comissão de distribuição, do retorno no investimento no lançamento dos projetos (P&A) e terá um equity no filme. A Lacan espera captar pelo menos R$ 12 milhões para o início da operação do fundo, contando os R$ 8 milhões do BNDES. O dinheiro deve ser usado nos filmes com maior potencial de mercado que chegam à distribuidora. “Já temos uma carteira de filmes pequenos mesmo sem investir na produção. O fundo servirá para trazer os filmes de maior valor à distribuidora”, explica Wainer.

O próprio fundo RB I, da Rio Bravo, investe em distribuição, embora não tenha contrato com uma única distribuidora. O fundo investe no P&A de filmes nacionais. Além disso, é o principal investidor da Vereda Filmes, uma agente de vendas para o mercado internacional que tem entre seus títulos o longa “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias”, de Cao Hambúrguer, indicado pelo Brasil para concorrer ao Oscar de melhor filme em língua estrangeira.

Artigo 1º

Uma questão debatida também em corredores é se o Artigo 1º da Lei do Audiovisual, um dos principais mecanismos de incentivo do cinema até hoje, não estaria com seus dias contados. Isto porque, com a possibilidade de investimentos em Funcines com 100% de incentivo, o mecanismo perderia sua atratividade. Vale lembrar, o Artigo 1º permite que se invista na aquisição de cotas dos filmes com até 100% de incentivo. “Muitas empresas não gostam deste mecanismo, porque como na maioria dos casos o investimento não apresenta retorno, pode trazer algumas dores de cabeça ao departamento financeiro ou contábil, mesmo com incentivo”, diz uma fonte. Já os Funcines, contando com instituições financeiras como gestores, têm muito mais chances de trazer dividendos.

Outra fonte, ligada ao governo federal, lembra que quando a Ancine foi negociada junto ao governo pelo Gedic (Grupo Executivo de Desenvolvimento da Indústria do Cinema), teria se acertado que tanto o Artigo 1º da Lei do Audiovisual quanto o incentivo à produção de longas da Lei Rouanet seriam extintos no final de 2006. “Atendendo a pedidos dos produtores, o Artigo 1º foi mantido e foi criado outro mecanismo para substituir aquele da Lei Rouanet (o Artigo 1ºA), mas a tendência é o fortalecimento dos mecanismos retornáveis”, admite.“Já o Artigo 1ºA deve se fortalecer, sendo usado principalmente pelas empresas estatais”, diz a fonte.

CANAIS INTERNACIONAIS

Representantes de diversas redes internacionais de televisão participaram do Festival do Rio, apontando a forma de trabalhar com produtoras internacionais e o tipo de conteúdo buscado para a grade dos canais. Além disso, produtores e canais participaram de reuniões individuais. Entre as apresentações estavam as de Ann Rose, do Sundance Channel (EUA); Norm Bole, da Alliance Atlantis (Canadá); e Richard Life, do Channel 4 (Inglaterra). A programação de televisão do festival foi organizada pela ABPI-TV.


Co-produção

Também entrou em pauta a co-produção entre países. Elisa Álvares, da britânica Future Films, apontou a importância da co-produção internacional no mercado britânico. Em 2005, foram produzidos 131 longas-metragens, dos quais 73 foram co-produções internacionais. No ano seguinte, dos 134 longas produzidos, 54 contavam com um co-produtor internacional. “A Inglaterra tem dez tratados internacionais de co-produção”, explicou. A co-produção seria uma maneira de poder buscar recursos fora do país e ainda garantir presença do filme em mais territórios. “É possível (aos brasileiros) co-produzir com o Reino Unido, mas apenas filmes que tenham caráter comercial”, garantiu.

Ainda no evento, Brasil e Itália assinaram um protocolo de intenção para a criação de um fundo de desenvolvimento de projetos brasileiros em co-produção com a Itália. O documento final será assinado durante o Festival de Cinema de Roma, no final de outubro, e entrará em vigor a partir de 2008. A parceria prevê o desenvolvimento de projetos para a realização de co-produções.
A parceria será estabelecida entre a Ancine e o Instituto Luce e a Cinecittá Holding, do governo italiano.
Fernando Lauterjung