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operação
Audiência cativa
A operadora de cabo de Mossoró, no Rio Grande do Norte, aposta no conteúdo local para conquistar seus assinantes.
Carlos Eduardo Zanatta, de Mossoró, RN
(O jornalista viajou a convite da operadora)
A primeira e a última impressão sobre a pequena operadora de TV a cabo na segunda maior cidade do Rio Grande do Norte (230 mil habitantes) é a mesma: um primor. Impressiona como tudo possa funcionar debaixo de uma temperatura adequada apenas para evaporar a água nas salinas. Apesar de ser essa imensa retorta, Mossoró é uma cidade com tradições culturais fortíssimas e muito ciosa de sua identidade. Há quatro anos em operação comercial, na primeira semana de abril, a TV a Cabo Mossoró inaugurou no seu canal local, um noticiário diário e ao vivo com 30 minutos de duração. “É o programa que faltava para completar o canal e aumentar ainda mais sua credibilidade diante da população da cidade”, comemora Milton Marques, proprietário da empresa. Atualmente reitor da Universidade Estadual do Rio Grande do Norte, psiquiatra e professor, Milton Marques divide a empresa com sua esposa, a assistente social e administradora, Zilene Marques, que efetivamente dirige a operadora. Apesar de também atuar empresarialmente na área de saúde, o professor Milton, como é conhecido, foi fundador de cinco emissoras de rádio no interior do Estado, e ainda mantém participação em uma delas. “Quando surgiu a idéia da TV a cabo para Mossoró eu me interessei, e acabei ganhando a licitação, que custou R$ 450 mil, com a desistência de um dos concorrentes que estava investindo milhões em diversas cidades do Nordeste”, conta.
A rede bidirecional de 750 MHz com 100 km de fibras e 200 km de cabos coaxiais atinge 18 mil domicílios divididos em nove células que atendem um total de 3,4 mil assinantes ativos. A previsão é chegar a 18 células até 2012, para atender 100% da área urbana e operar com 20 mil assinantes. Com este tamanho e especialmente com o potencial econômico demonstrado pelo canal local, a operadora tornou-se auto-sustentável, inclusive em relação aos investimentos necessários para a ampliação da rede: “Eu calculo que já investi uns R$ 2 milhões na TCM”, avalia Milton Marques.
A empresa conta com 110 trabalhadores, entre próprios e terceirizados.
Com a ausência de uma geradora de televisão local, o canal local da TCM é, não apenas sob o ponto de vista econômico o carro chefe da operadora, mas o diferencial de programação que permite à empresa concorrer com os sistemas de DTH. Uma outra razão do sucesso é o permanente intercâmbio da empresa com os demais veículos de comunicações, especialmente rádio e jornal da cidade. De alguma forma, os quatro diários editados em Mossoró (três matutinos e um vespertino) tem algum tipo de troca com a empresa, além dos jornalistas independentes com presença garantida na programação do canal local. Nas noites de domingo, durante uma hora, dois jornalistas da Gazeta do Oeste entrevistam uma personalidade.
O programa é exibido simultaneamente por uma das FMs locais e a transcrição da entrevista é publicada no jornal. Na verdade, o intercâmbio ideológico não se dá apenas com as áreas de comunicação, mas com os diversos segmentos da universidade, das igrejas, das associações da sociedade civil como um todo. E finalmente, acredito que se deva atribuir parcela do sucesso da TCM ao fato da família Marques, mesmo estando em uma cidade nordestina tradicional, é partidariamente independente na política: “Não foi por falta de insistência de diversos partidos”, lembra Zilene Marques, “mas graças a Deus, Milton nunca entrou na política”, conclui.
Mossoró na TV
Há muito que se sabe que além de ser apaixonado por televisão como poucos no mundo, o brasileiro adora ver na tevê a sua realidade e até mesmo ele próprio: “eu queria ter uma televisão para falar com a cidade”, afirma Milton Marques, “daí que priorizamos o canal local que hoje é a cara da cidade”. O canal local transmite programação própria de 8 da manhã às 22:30, sendo pelo menos cinco horas ao vivo. O restante do tempo é preenchido com programação da Band News. Para dirigir o canal local, a TCM “importou” de São Paulo a jornalista Regina Cunha, que já havia trabalhado em diversas emissoras como jornalista e produtora: “Eu tinha chegado da Inglaterra onde havia estudado e estagiado e tinha uma proposta de trabalho muito interessante para voltar àquele país. Fui apresentada aos Marques e topei a proposta de dar apenas uma consultoria para o TCM 10, o canal local da empresa. Daí, fui ficando e ficando, e sabe Deus até quando eu vou estar por aqui”. Para Regina Cunha, a existência do canal local da operadora é o sinal da credibilidade da empresa diante do povo de Mossoró. “Tenho a impressão que o comerciante pensa que vale a pena investir neste canal porque ele se vê na TV, não apenas ele como pessoa, mas a realidade de sua gente passa nessa televisão. No caso do jornal diário, há seis meses já havia um anunciante pedindo para reservar espaço para ele no programa.” No ano passado, uma das idéias de Regina Cunha para promover a inserção social da TV na realidade local, o programa “Minha Escola na TV”, ficou em segundo lugar no Prêmio Operador Cidadão promovido pela Associação Neo TV. Para este ano, a TCM vai envolver-se na campanha para a reforma de um asilo mantido pela Igreja Católica, reforma orçada em cerca de R$ 500 mil. Além da
qualidade do sinal, a programação visual do canal local é de alta qualidade, todas as vinhetas são produzidas na própria empresa.
Na opinião de Regina Cunha, para funcionar adequadamente, o canal local deve ser auto-sustentável, e por isso, a grade de programação está em evolução permanente. Ainda de acordo com a diretora do canal, no começo, a idéia foi trazer para os programas que já existiam, especialmente o “Manhã TCM”, pessoas que tivessem algum poder de decisão nas empresas por elas controladas ou representadas: “Aos poucos, estas pessoas tornaram-se mais do que anunciantes. São nossos parceiros”. Na verdade, existem diversos modelos para viabilizar os programas. As variações são estabelecidas a partir das fases da produção de um programa, desde a idéia inicial até a comercialização do espaço quando o programa vai ao ar. Cada uma destas fases pode ser de responsabilidade de terceiros ou da TCM. Além disso, pode ser uma atividade remunerada ou voluntária (quando se enquadra na área da responsabilidade social). E há ainda espaço para modelos que misturam um pouco de tudo, como por exemplo, uso de equipamentos da TCM para gravação ou para a edição de um programa originalmente de terceiros, ou um programa totalmente sob a responsabilidade de terceiros (que paga integralmente à TCM pelo horário veiculando os comerciais que trouxer) mas que é apresentado ao vivo a partir do estúdio da operadora. O canal tem dois programas de variedades ao vivo, dois programas de entrevistas, um programa para comercialização de produtos (“Shop 10”), programas religiosos católicos e evangélicos, programas esportivos, um programa de vaquejada e a exibição nas noites de domingo de um dos jogos do campeonato estadual de futebol ou de outra modalidade esportiva disponível.
E o futuro?
Mesmo possuindo uma operadora auto-sustentada e com possibilidades de crescimento reais, o empresário Milton Marques se mantém atento ao desenvolvimento do mercado. Afinal, foi neste negócio que ele colocou boa parte dos recursos da família. Diante das novidades convergentes e das possíveis alterações no marco legal, Milton Marques observa que o momento é delicado: “é como se olhássemos para as nuvens. A cada dia elas têm um contorno diferente. Não se pode desligar um momento sequer da realidade”, aconselha. “Eu sei que não presto um serviço com tanta diversidade como pode prestar um DTH ligado a uma operadora estrangeira, mas sei também que a atenção ao usuário que eu tenho, eles nunca serão capazes de oferecer. Vai daí a importância que o canal local tem para nós da TCM”, explica. Segundo Milton Marques, a rede da operadora está preparada para oferecer novos serviços, especialmente a banda larga, construída utilizando a cada momento a tecnologia mais avançada disponível, mas a partir de um modelo de custo-benefício adequado. Na verdade, o empresário potiguar tem muito mais dúvidas do que certezas diante de uma possível entrada de grandes competidores como as “teles” no mercado de televisão por assinatura: “Isso pode acontecer como os supermercados. De repente chega um destes grandes empórios aí e me diz: ‘bote seu preço’. Se eu resistir, ele entra com um serviço com um preço que eu não posso acompanhar, e como é que eu fico? Daí pode ser que tenha que vender por preço nenhum. Alguma coisa tem que ser feita para evitar que as teles possam arrasar o mercado de televisão por assinatura”.
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