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nab2007
Momento de parcerias
Fernando Lauterjung
Feira da NAB marca pelo amadurecimento nas relações entre produtores de conteúdo e novas mídias.
Desde 2001 a tradicional feira dos broadcasters norte-americanos, a NAB, apresenta a distribuição em multiplataformas como tendência. Em 2006, a tendência já era tratada como realidade, mas ainda como novidade, pelo presidente da NAB, David Rehr, que afirmou que o sinal dos radiodifusores “precisa ir para todos os lugares, para todos os espectadores e para todos os dispositivos”. Em 2007 o tema passou a ser encarado com maior naturalidade pelo setor, e o sinal dos radiodifusores já estava em todos os lugares, mostrando o início da maturidade no relacionamento entre antigas e novas mídias. A euforia passou, deixando o entusiasmo de alguns e o pavor de outros na história, e trazendo novas fontes de receita para ajudar a sustentar o conteúdo.
O fato de as novas tecnologias de distribuição estarem no cotidiano dos radiodifusores e de qualquer produtor de conteúdo não deixa de trazer acaloradas discussões sobre direitos autorais e sobre a divisão das receitas nas novas plataformas. Todavia, as disputas que envolvem o direito autoral, a remuneração e a exploração das janelas também já fazem parte do cotidiano do mercado audiovisual, e, embora as disputas sejam constantes, ambos os lados aprenderam a trocar informações. Um dos painéis de maior destaque no evento dos radiodifusores norte-americanos foi o de Eric Schmidt, CEO do Google, que apresentou o que acredita ser o novo modelo de produção e distribuição de conteúdo: “o novo modelo terá de dar ao usuário maior poder, esta é a verdade fundamental”. Como exemplo deste novo modelo, Schmidt citou, obviamente, o YouTube, empresa que foi adquirida pelo Google.
O executivo aproveitou para acalmar o ânimo dos radiodifusores, que vêm com preocupação o avanço do Google na mídia eletrônica. “O Google produzirá espaços mais direcionados, que farão o negócio da publicidade crescer. Não estaremos roubando receita da televisão”. Ele enfatizou ainda que a gigante da Internet busca uma política e parcerias, na qual a Internet e a radiodifusão podem expandir sua base de anunciantes e, assim, aumentar receitas.
Questionado por uma produtora da platéia que tinha receio de perder os direitos autorais de sua obra caso ela fosse veiculada no YouTube, Schmidt afirmou que ela não perderia o direitos autorais, embora talvez perdesse o controle sobre a obra, admitiu. Todavia, o CEO do Google encorajou os produtores a colocarem seus conteúdos na Internet e “testemunhar como o processo se desenrola”. Para ele, embora o conteúdo possa ser copiado, em última instância, construiria-se um público significativamente
maior, beneficiando o produtor em longo prazo.
Segundo David Eun, vice-presidente da empresa para parcerias de conteúdo, a visão que o Google tem do conteúdo em vídeo é diferente da dos radiodifusores. “Quando pensamos sobre vídeo, vemos uma cultura dirigido ao clipe”, afirmou. Além disso, segundo ele, a estratégia da empresa continua a mesma, “organizar a informação disponível no mundo e torná-la acessível”. “Nós queremos pensar além das páginas web, e ir atrás de outros tipos de informação”. Para ele, “outros tipos de informação” significa vídeo.
Blake Krikorian, um dos fundadores e CEO da Sling Media, afirmou que quando o espectador quer acessar um conteúdo de sua escolha, não é papel da indústria tentar barrá-lo. “A audiência com horário marcado está morta”, afirmou categoricamente. A Sling Media é a fabricante do Slingbox, que permite que as pessoas assistam o conteúdo de sua televisão por assinatura à distância, em um computador. O equipamento é oferecido no Brasil pela TVA, como um serviço adicional para seus assinantes. Krikorian afirmou que sua empresa, assim como os fabricantes de DVRs, que permitem gravar o conteúdo para assistir no momento desejável, sofreram ameaças da indústria produtora de conteúdo, preocupada em perder receitas. “Temos de ter cuidado para não usar o direito autoral para defender modelos de negócios, mas proteger o conteúdo”, disse. Segundo ele, tecnologias como a oferecida por sua empresa podem beneficiar os broadcasters, ao transformar qualquer laptop em um aparelho de televisão. O executivo da Sling Media diz ainda que qualquer alternativa a permitir que os espectadores possam acessar o conteúdo em qualquer momento e lugar só fomentará a pirataria.
“A alternativa é levar as pessoas a roubar o conteúdo e a compartilhar o conteúdo, e ninguém fará dinheiro com isso”.
TV digital
Esta foi a penúltima NAB antes do switch-off (desligamento) do sinal analógico na televisão terrestre norte-americana, que está marcado para 17 de fevereiro de 2009. E, aparentemente, a data não será adiada. Atualmente, mais de 1,2 mil emissoras transmitem digitalmente nos EUA, mas apenas 28% das casas estão equipadas com receptores digitais. Já foram vendidos 35 milhões de monitores HDTV nos
país, e a expectativa é que mais 16 milhões sejam vendidos este ano.
A notícia é boa para o Brasil, que, segundo o consultor e ex-presidente da SMPTE Edward Hobson, que participou do SET e Trinta, evento da Sociedade Brasileira de Engenharia de Televisão promovido durante a NAB, pode se beneficiar da escala atingida com a venda global de monitores. “Hoje, as telas 16x9 são predominantes nas lojas e os preços estão caindo. Os monitores LCD tiveram queda de preço de 50% em apenas um ano”. O engenheiro americano deu ainda outras dicas aos brasileiros para a transição, lembrando que a difusão da TV digital não cabe apenas aos radiodifusores. Para Hobson, os pontos de venda precisam aprender a vender os novos televisores. Segundo ele, uma grande rede de eletroeletrônicos dos Estados Unidos costuma veicular filmes a partir de VHS nos monitores que estão na vitrine. “Quem compraria uma TV com aquela qualidade?”, questiona.
Os radiodifusores brasileiros participaram com uma comitiva de peso no evento. Cerca de 1,2 mil brasileiros foram à feira este ano, segundo a SET. A delegação brasileira foi a maior internacional presente na feira. As emissoras, principalmente as de São Paulo, que serão as primeiras a transmitir o sinal digital, estavam se preparando para a novidade. As emissoras que ainda não haviam comprado estavam buscando as opções de transmissores digitais.
Desta vez, os brasileiros se destacaram no evento também por oferecer uma nova tecnologia: o padrão nipo-brasileiro. Os integrantes de uma missão brasileira que foi ao Japão para manter as negociações em torno do padrão de TV digital voltaram para o Brasil com uma escala em Las Vegas, durante a feira. A grande novidade trazida do oriente é que Brasil e Japão irão harmonizar os padrões ISDB e ISDTV. Isso significa que o padrão será o mesmo, embora com implementações diferentes nos dois países. Assim, MPEG-2 e MPEG-4, por exemplo, fazem parte do padrão, permitindo que cada país opte por implantar um dos dois. O mesmo já acontece nos outros padrões (o DVB tem diferentes implementações na Inglaterra, Alemanha, Austrália etc.). A expectativa é que isso facilite a internacionalização do padrão. “Vamos deixar de lado o ISDB e o ISDTV, adotando um padrão ‘nipo-brasileiro’, que pode vir a ser ‘nipo-brasileiro-argentino’, por exemplo”, explicou o presidente da SET e do Fórum ISDTV, Roberto Franco, que fez parte da missão brasileira ao Japão.
Franco deixou claro que a intenção é difundir o padrão, pelo menos na vizinhança. “Qualquer país da América do Sul que não adotar o padrão brasileiro estará fazendo burrice”. Segundo ele, os países que ainda não fecharam com um padrão internacional estão “esperando uma oferta”, e o Brasil, em conjunto com o Japão, tem condições de fazer uma boa oferta na região, incluindo transferência de tecnologia, intercâmbio para formação profissional e até a inclusão das necessidades locais de cada país no padrão.
Até mesmo a concorrência afirmou que existem possibilidades para o padrão nipo-brasileiro. Todavia, o Brasil precisa ser rápido para poder se destacar na disputa pela difusão de seu padrão na América do Sul, seja ele o ISDTV, seja ele o “nipo-brasileiro” ou ainda o ISDB puro. A afirmação foi de Peter MacAvock, diretor executivo do DVB Project. O executivo do padrão europeu de TV digital disse que a Argentina e o Chile estão muito propensos a aceitar o DVB, e não vai ser fácil mudar esta tendência. O que o Brasil tem na manga, segundo MacAvock, é que “o DVB é tão flexível que preocupa os broadcasters”. Para ele, esta característica fez com que o padrão fosse recusado pelos radiodifusores brasileiros e pode causar a mesma reação nos países vizinhos.
Roberto Franco concorda que não há muito tempo, visto que Chile e Argentina aceitaram apenas adiar a decisão para ouvir a proposta brasileira.
Mobilidade
A mobilidade na transmissão terrestre, tão defendida pelos radiodifusores brasileiros desde o início dos testes dos padrões internacionais no país, tornou-se uma demanda dos radiodifusores em todo o mundo, inclusive nos países que já entraram na digitalização do sinal. Nos Estados Unidos os radiodifusores estão recebendo ofertas de soluções que prometem fazer a transmissão para dispositivos móveis no sinal de TV terrestre. São duas tecnologias que competem para entrar no padrão ATSC, uma oferecida pela Harris e LG, e outra pela Samsung e Rohde & Schwarz. Ambas procuram resolver o ponto fraco no modelo americano de TV digital.
O DVB também deve contar com soluções de transmissão aberta para dispositivos móveis. Segundo o diretor do DVB Project, Peter MacAvock, os lugares nos quais a recepção móvel e portátil fez mais sucesso são Coréia e Taiwan, que adotaram uma transmissão gratuita, “free-to-air”. Todavia, segundo ele, outros países que adotaram o free-to-air estão encontrando dificuldades em convencer o público a comprar telefones móveis significativamente mais caros, ou as operadoras de telecom a subsidiar os aparelhos com recepção gratuita.
O DVB trabalha na especificação do DVB-T2, uma evolução do padrão terrestre atual que deverá oferecer multiprogramação em alta definição e transmissão para dispositivos portáteis e móveis.
Eric Schmidt, do Google, diz que os dispositivos móveis serão o DVD da nova geração. “Em cinco anos, nós teremos dez vezes mais capacidade nos telefones móveis”, afirmou, lembrando que “descobrir como colocar seu conteúdo em dispositivos móveis é o próximo grande desafio”.
Infra-estrutura
No que se refere à tecnologia, tema central do evento, a alta definição também deixou de ser uma questão. Atualmente, praticamente todos os fabricantes ou desenvolvedores trabalham com soluções multiformato. Quando não são capazes de trabalhar com qualquer resolução, permitem um upgrade para o HD muito simples, muitas vezes por software, ou então com a adição de uma placa ao equipamento.
Justamente por isso, a alta definição não era o tema central entre os fabricantes e desenvolvedores, que tentavam se destacar no gerenciamento de conteúdo e em workflow para produção. Entre os fabricantes, a expectativa para o mercado nacional era com a venda de soluções de jornalismo. Pelo menos duas das maiores emissoras visitaram os estandes da NAB, em Las Vegas, a procura de soluções para produção de jornalismo em HD. O investimento deve ser feito para uso, em um primeiro momento, principalmente na captação dos jogos de futebol.
Entre as grandes novidades anunciadas estava a entrada da Apple na indústria de soluções para a radiodifusão. Com seu editor Final Cut Pro já bem difundido no meio, a empresa de Steve Jobs lançou agora o Final Cut Server. Trata-se de uma aplicação para servidores que trabalha de forma integrada ao Final Cut Pro.
A nova solução, para gerenciamento do conteúdo e workflow automatizado para pós-produção e radiodifusão, coloca a Apple como uma concorrente de empresas como a Avid.
Também chamou a atenção o início do uso de gravação em memória em estado sólido pela Sony. Como era de se esperar, a fabricante anunciou que adotará a gravação em memória em estado sólido em seus equipamentos, usando cartões ExpressCard, com especificação SxS.
A Ikegami Tsushinki Co. e a Toshiba Corp. anunciaram no evento o desenvolvimento de novos produtos. Em um primeiro momento, serão lançados quatro produtos a partir da parceria entre as duas fabricantes do broadcast: GFPAK, uma mídia de armazenamento baseada em memória em estado sólido; uma nova camcorder baseada nesta mídia; e dois modelos de gravadores de vídeo. |