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Profissionais que valem ouro
Conteúdo e novas mídias abrem as portas das produtoras para profissionais de diferentes formações; empresas exigem bagagem cultural reforçada.
Samuel Possebon
Com o aquecimento do mercado publicitário em 2006, após um 2005 desastroso para a área, as produtoras publicitárias que ainda não haviam abraçado o conteúdo viram o momento oportuno para investir seus recursos em outros setores que não apenas a produção de comerciais para a televisão. Foram formados departamentos de conteúdos, novas mídias, e uma série de outras definições para englobar tudo aquilo que não era o filme publicitário tradicional.
Dentro desse contexto, as produtoras passaram a precisar de profissionais diferenciados, que pudessem contribuir com essas novas produções, fossem elas longas-metragens, programas para a TV, vídeos para a Internet, programetes diferenciados para as marcas ou aplicativos para celular.
Ainda que o grande volume de trabalho continue sendo para a publicidade convencional, é a produção desse conteúdo diferenciado e para diferentes mídias que tem aberto as portas das produtoras para as profissões novas e para as pouco valorizadas no mercado publicitário.
Um dos profissionais mais procurados pelo mercado atualmente são os roteiristas. Com o desaparecimento da indústria cinematográfica brasileira durante anos, a formação de novos roteiristas praticamente não aconteceu. Hoje, com o aquecimento do mercado de conteúdo, a procura por roteiristas aumentou e não há profissionais experientes em número suficiente para absorver a demanda.
“O mercado de roteiristas, que já é escasso, ainda se concentra nos grupos de televisão, assim como acontece com o elenco de primeira linha”, analisa Gil Ribeiro, da Mixer.
O diretor conta que no ano de 2006 a Mixer não teve aumento no seu quadro de funcionários, que hoje conta com 255 contratados. No entanto, a área que mais cresceu e demandou contratações foi a de dramaturgia da produtora, absorvendo principalmente roteiristas e produtores executivos.
A Maria Bonita Coisas, divisão da Maria Bonita Filmes para conteúdo, entretenimento e novas mídias, foi a responsável pela duplicação do número de funcionários contratados pela produtora. Considerando que o conteúdo exige uma estrutura fixa, a produtora contratou cerca de 15 pessoas (hoje há 25 funcionários na produtora no total) para áreas como produção executiva e criação. Segundo Dudu Venturi, sócio da produtora, além de gerar uma necessidade de profissionais como roteiristas e produtores executivos, o conteúdo mostrou a importância de profissionais especializados.
“O advogado especializado em audiovisual está em falta hoje, e ele é uma peça chave na produção de projetos”, pondera.
Surfar a nova onda
O conteúdo não foi o único responsável pelo crescimento das produtoras e pelas contratações diferenciadas. Com os avanços das novas tecnologias e com a TV digital despontando no Brasil, as produtoras estão cada vez mais interessadas em profissionais capazes de lidar com as novas tecnologias, plataformas e formatos. A Digital 21, por exemplo, passou por um processo de mudança de perfil (de uma produtora de efeitos e animação para uma produtora de conteúdo), o que demandou um aumento de 15% a 20% em seu quadro de funcionários. Com o foco da empresa em produção de novos formatos e a inclusão de trabalhos em live action em sua gama de serviços, a produtora passou a buscar profissionais com conhecimento mais amplo de novas mídias, como a Internet – área para qual a demanda por filmes aumentou 15%. “Para essa área, não contratamos profissionais de produção, mas sim de web design, que são os webmov designers”, diz o diretor da Digital 21, Rodolfo Patrocinio. “Nosso profissional precisa ter conhecimento sobre flash, páginas, compressão e servidores”. Com as atividades da produtora focadas 60% em trabalhos publicitários e 40% em conteúdo (aplicativos para celular, jogos, DVDs de shows, seriados para a TV, produções para ambiente corporativo e outros), os profissionais procurados são aqueles que tem total domínio das mídias. “Estar antenado com as novidades e ter conhecimento das novas mídias sempre foram características procuradas nos profissionais. Hoje, esse conhecimento é pré-requisito”, diz.
E não apenas as produtoras de efeitos têm procurado por profissionais que saibam lidar com os diferentes meios e plataformas. A Margarida Flores e Filmes, que promete ampliar a sua atuação na área de conteúdos de novas mídias também atribui a esse segmento o seu maior crescimento em número de funcionários. O núcleo de novas mídias, que começou com quatro funcionários fixos, já conta com 22 profissionais. “Contratamos profissionais de Internet para essa área da produtora, os quais chamamos de ‘profetas’, pois com eles aprendemos sobre a nova mídia”, diz Paulo Schmidt, do Grupo Academia. Outra área da produtora que cresceu foi a de pós-produção, que passou de 12 profissionais para 31. Dentro desse departamento, encontram-se mais profissionais escassos no mercado. “No Brasil temos carência de profissional de 3D, supervisor de efeitos digitais e finalizadores”, diz Schmidt.
Andrea Barata Ribeiro, da O2 Filmes, acredita que a dificuldade não é encontrar profissionais que trabalhem bem para diferentes plataformas, mas sim encontrar pessoas que saibam cobrar de maneira adequada. “A questão é que os profissionais que trabalham para a publicidade tradicional cobram um custo incompatível com a mídia Internet”, exemplifica. “Essa é uma grande porta de entrada para os novos profissionais”.
Para completar a formação dos profissionais e moldá-los para atender as suas necessidades, as produtoras têm realizado workshops e treinamentos “dentro de casa”. A Estação 8, por exemplo, traz profissionais de fora do país para oferecer cursos a sua equipe de pós-produção. “Temos buscado profissionalizar o funcionário dentro da produtora”, diz a sócia Sandra Jonas. A pós-produção tem sido a área responsável pelo maior número de contratações na Estação 8. “Esse profissional precisa entender de tecnologia e ser polivalente”, diz.
Com o aumento da demanda por roteiristas e atores para a sua área de dramaturgia, a Mixer tem investido na formação de um time próprio desses profissionais. “Convidamos roteiristas jovens e fazemos workshops para encontrar talentos”, diz Gil Ribeiro. No elenco, a produtora faz um trabalho junto a agências de casting e núcleos de teatro para encontrar uma nova safra de profissionais. A produtora conta com um departamento de elenco específico para esse trabalho, formado por quatro pessoas.
De olho na bagagem
Em um mercado extremamente competitivo, ter conhecimentos técnicos tornou-se um pré-requisito, mas não necessariamente um diferencial. O que as produtoras buscam são profissionais que possam trazer, além do conhecimento específico inerente à sua função, uma formação cultural e artística que agregue valor ao trabalho. “É importante fazer cursos de técnica, fotografia, edição e montagem, que complementam a formação universitária. O bom profissional precisa conhecer todas as etapas de produção e trazer experiência de vida para o trabalho”, diz Roberto Turquenitch, da TGD Filmes de Porto Alegre, produtora que passou por uma reformulação em 2006 com investimentos em infra-estrutura, equipamentos e profissionais, com o aumento de cerca de 30% em seu quadro funcional.
Uma das atividades que mais cresceu na TGD foi a de production service, o que leva Turquenitch a buscar profissionais que falem línguas estrangeiras. “Procuramos profissionais que dominem as ferramentas básicas, como a informática e o inglês”, diz.Pedro Lazzarini, presidente do Sindicato dos Trabalhadores na Indústria Cinematográfica (Sindcine) do Estado de São Paulo, atenta para o fato de que com as novas tecnologias, os novos profissionais não têm se preocupado com a sua formação cultural. “Antes, um montador era um profissional criado no cinema, que montava o filme na moviola. Essa nova geração edita o filme em computador, sem precisar do conhecimento sobre cinema. Esses profissionais não são montadores, são operadores de vídeo”, diz.
Para ser um bom profissional técnico, portanto, não basta conhecer bem a função, é preciso adquirir uma formação artística e cultural sólida sobre a área. “A primeira característica que todo profissional deve ter é bagagem cultural. Um montador que trabalha com cinema e não vê filmes entra na função despreparado, sem referenciais. É preciso ter senso crítico”, diz Paulo Schmidt.
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Não são apenas as produtoras que estão em crescimento e em busca de profissionais antenados. As emissoras também se preparam para trabalhar com as mudanças impostas pelas novas mídias e plataformas. Para a Rede Globo, por exemplo, o profissional do futuro é aquele “multimídia e multiplataformas”, que tenha visão geral dos meios e conhecimentos em Internet, edição, produção de conteúdo etc. “Hoje, as mídias dialogam entre si e o usuário interage cada vez mais. Com o avanço desta tendência, mudarão substancialmente os modos de instrução, de trabalho, de comunicação e de entretenimento. O profissional de comunicação e do audiovisual terá de ter flexibilidade: conhecer as peculiaridades de cada mídia, como produzir conteúdo para cada uma delas e, ao mesmo tempo, como usá-las de forma integrada, não só entre si, mas também com o usuário”, afirma a Central Globo de Comunicação.
A emissora teve em 2006 um crescimento de 9,1% no número de profissionais de produção em relação a 2005. No total, foram 228 contratados na área de produção, com destaque para os profissionais artísticos, de áreas como cenografia, figurino e iluminação. |
Formação cultural, conhecimentos de novas mídias e plataformas, talento, experiência e o total domínio de sua própria função são alguns dos pré-requisitos básicos para que um profissional ingresse e permaneça no mercado de produção audiovisual. Ter visão estratégica do negócio e conhecimentos que vão além da própria função, são diferenciais para os “profissionais do futuro” nesta área.
“As pessoas procuram uma profissão, mas o futuro precisará de profissionais multifuncionais. O que procuramos hoje são profissionais multiuso e multimídias”, diz Rodolfo Patrocinio.
Gil Ribeiro, da Mixer, acredita que a profissão do futuro ainda não foi criada. “Acredito que serão os integradores, ou seja, profissionais capazes de criar formatos, maneiras de usar as multiplataformas e domínio da interatividade, não só com o público, mas entre as plataformas”, conclui.
Sempre em alta, sempre em falta
Há certas profissões que parecem estar sempre em falta no mercado. Não porque não existam profissionais em quantidade suficiente, mas porque apenas poucos deles são considerados “muito bons” pelas produtoras. E esses acabam por definir os cachês em valores mais altos do que o mercado pede. Talvez o caso mais característico dessa situação seja o dos diretores de fotografia, cuja escassez é apontada por diversas produtoras de audiovisual. Pedro Lazzarini diz ainda que não faltam diretores de fotografia, mas sim bons profissionais. “Os melhores profissionais acabam cobrando um preço exorbitante”, diz. Além do diretor de fotografia, quando há aumento no número de produções, o mercado sente a escassez de outros profissionais como produtores de locação, de figurino e de casting (com visão de descoberta de novos talentos); assistentes de direção; diretores de arte; montadores; sound designers; mixadores; artistas gráficos; maquiadores; continuistas; line producers; e técnicos em geral.
Segundo Pedro Lazzarini são poucos os profissionais realmente escassos. O que acontece é uma distorção de mercado. “Não falta, está caro. O mercado se tornou um chamariz de salários altos”, diz.
O presidente do sindicato diz que pretende realizar uma pesquisa para mensurar o mercado de produção, tanto publicitária, quanto cinematográfica. Entre os resultados, espera-se obter o número de empregos gerados (quantificar quantos profissionais de cada tipo foram empregados), salários, número de filmes e outros.
O primeiro passo do Sindcine para corrigir as deficiências do mercado foi a criação de cursos para a formação de técnicos, assistentes.
São oferecidos cursos de assistente de direção, continuista, elétrica, câmera, produção e maquinária. O sindicato realiza também cursos para roteiristas. |