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Novas mídias, velhas receitas
Samuel Possebon, de Las Vegas
Gigantes da mídia tradicional tentam entender seus papéis no mundo digital durante a NCTA Cable 2007, maior evento de TV a cabo dos EUA. Apostam no vídeo sob demanda como contraposição ao YouTube e dizem que publicidade continuará pagando a conta do conteúdo de qualidade.
Os grandes grupos de mídia dos EUA sempre tiveram uma relação muito próxima com a TV a cabo. A maior parte deles, como Time Warner, Viacom, News Corp., Turner e Disney sempre tiveram presença forte nesse setor, seja como programadores, seja como operadores. E em uma época em que grandes grupos de mídia da era da Internet, como Google e Yahoo, avançam sobre o território da mídia tradicional, sobretudo desenvolvendo novas formas de entrega de vídeo e buscando receitas publicitárias, seria natural que os grupos tradicionais se refugiassem justamente na TV paga. Foi o que se viu durante a NCTA Cable 2007, o maior evento da indústria de TV a cabo dos EUA, que aconteceu em Las Vegas no início do mês. Foi uma grande sessão de análise coletiva das grandes empresas de comunicação do mundo, todas tentando ver o seu papel no mundo digital.
Jeffrey Bewkes, presidente da Time Warner Inc., um dos maiores grupos de mídia do mundo, fechou o evento dando a mensagem que sintetiza o que aconteceu. “O que veremos nos próximos anos é mais conteúdo entregue sob demanda e financiado por publicidade nas redes disponíveis”.
A “onda” tecnológica do momento nos EUA é o vídeo sob demanda (VOD), visto como a resposta adequada a coisas como YouTube, MySpace, Apple TV, Joost, Vudu e outros “novatos” que chegaram ao mercado de vídeo revolucionando a forma de ver televisão. Aposta-se que a publicidade pagará os conteúdos sob demanda, e que a entrega de conteúdos on-demand pelas redes de cabo é uma boa resposta ao conteúdo entregue pela Internet. “Convenhamos, YouTube nada mais é do que vídeo sob demanda, e isso as operadoras de cabo fazem, mas com conteúdo de melhor qualidade. E assim como o Google, as operadoras de cabo sabem quem é que está assistindo o conteúdo, onde e quando. Então, podem tirar igual proveito do potencial publicitário da Internet”, disse Bewkes.
Nos EUA, ao final de 2006, havia 32 milhões de usuários de cabo com serviços digitais, de um total de 65 milhões de usuários de TV a cabo. Este semestre os EUA chegarão à marca de um serviço digital disponível, por redes de cabo, em 100% dos domicílios atendidos pelas redes (o que significa que todas as operadoras já têm serviços digitais). Em cerca de 85% dos lares servidos por TV a cabo, há serviço de vídeo sob demanda disponível e quase 25% dos assinantes de serviços digitais já tem DVR (gravador digital).
Mas os grupos de comunicação tradicionais também apostam que são eles quem darão “profissionalimo” ao conteúdo disponível na Internet e em meios digitais.
“Ainda é muito pouco em termos de receita para nós, comparado com o que as outras indústrias proporcionam, mas é óbvio que é algo de muito potencial”, disse Richard Parsons, CEO da Time Warner Inc, referindo-se à distribuição de conteúdos pela Internet.
“As oportunidades desse novo mundo são muitas, mas os riscos também. Pirataria e preservação dos modelos de negócio viáveis são os principais problemas”, disse Peter Chernin, CEO da News Corp.
Parsons, da Time Warner, comentou a entrada de grandes grupos de comunicação no mercado de novas mídias. “A gente demora um pouco para aprender a coordenar os movimentos nesse novo ambiente.
É como uma criança aprendendo a andar. Mas depois que isso acontece, temos potencial de levar as inovações a um outro patamar”. Também falando em defesa dos grandes grupos de comunicação, Chernin foi categórico: “As empresas de conteúdo e aplicações para novas mídias continuarão surgindo, mas continuará havendo consolidações e os grandes vão ficar ainda maiores”, ponderou o CEO da News Corp.
| DIGITAL AVANÇA NO BRASIL |
Se as projeções dos dois principais operadores de TV paga terrestre no Brasil estiverem corretas em relação ao volume de caixas digitais (set-tops) instaladas até o final do ano (um milhão para a Net Serviços e 300 mil para a TVA), é possível que haja, ao final de 2007, nada menos do que 2,8 milhões de set-tops digitais na TV por assinatura brasileira.
Vale lembrar que será no final do ano que as emissoras de TV aberta da cidade de São Paulo começarão as transmissões de seus sinais digitais e que os primeiros equipamentos serão vendidos no mercado. O DTH da Sky tem perto de 1,3 milhão de assinantes digitais. Net e TVA esperam ter, somadas, mais 1,3 milhão de caixas instaladas (o que inclui pontos extras). Existem ainda mais alguns operadores de MMDS com plataformas digitais, que somados devem chegar ao final do ano com um pouco menos de 100 mil assinantes; e a Telefônica e a Tecsat, cujos DTHs já somam hoje mais de 100 mil assinantes digitais. O mercado de TV paga deve fechar 2007 com 5 milhões de assinantes ao todo. |
“No passado, os distribuidores tradicionais, como as operadoras de cabo, ficavam meio reticentes quando viam nossos conteúdos na Internet, mas hoje todo mundo está acostumado e não acha ruim”, disse George Bodenheimer, co-chairman da Disney e presidente da ESPN.
Aliás, nos EUA o flerte dos tradicionais produtores de conteúdo com os novos meios tem despertado um certo mal estar com os “antigos” distribuidores desse conteúdo, como as empresas de cabo.
Coleman Breland, vice-presidente de vendas e marketing da Turner, tentou definir a situação. “É o que eu chamo de síndrome da banda de rock. Nós programadores e os operadores de cabo começamos juntos, alcançamos o sucesso, e agora chegamos em um ponto da nossa convivência em que queremos experimentar coisas novas, mas ainda assim continuaremos juntos”. Ele explica que não foram os programadores que criaram coisas como o YouTube ou a distribuição de conteúdo pelo celular. “Mas já que essas coisas estão aí, vamos experimentar, assim como os operadores estão experimentando coisas que nem sempre nos agradam, como DVRs”.
Banda extra-larga
Enquanto grupos de comunicação tradicionais e operadoras de cabo discutem seu papel no mundo digital, o único fato concreto é que a banda larga é que está determinando essa revolução na mídia, e sem dúvida o cabo tem, pelo menos nos EUA, um papel fundamental nesse cenário.
Já se começa a falar, agora, na era do “wideband”, ou seja, a segunda geração da banda larga. Brian Roberts, CEO da Comcast, que na NCTA de 1996 havia feito a demonstração do potencial da primeira geração de cable modems, reviveu a experiência na apresentação de uma plataforma DOCSIS 3.0 (padrão de transmissão de dados para TV a cabo desenvolvido pela indústria dos EUA através do CableLabs). Se hoje, com o DOCSIS 2.0 as velocidades comercialmente disponíveis chegam ao máximo de 50 Mbps, com a terceira geração da tecnologia, o que se tem são patamares na casa dos 150 Mbps. Na demonstração realizada, um arquivo de 3 Gb foi transferido em pouco mais de três minutos. “O que acabamos de passar em três minutos e quarenta segundos é o volume de dados que um domicílio médio leva um mês para consumir”, disse Roberts. Em conferência com a imprensa, ele disse que ainda não há previsão, pelo menos por parte da Comcast, de levar a tecnologia para o usuário. “É algo que requer investimento, então faremos no futuro, quando houver demanda”. Mas ele ressaltou que o salto de velocidade que se espera para a Internet abrirá possibilidades para aplicações inimagináveis hoje. E isso amplificará, ainda mais, os efeitos que a TV tradicional já vem sentindo com a chegada das mídias digitais.
“Há dez anos, não existia Google, YouTube, Yahoo!, a Amazon não tinha aberto em bolsa. O fato é que nós estávamos aqui há dez anos e demos as ferramentas para que todas estas empresas se desenvolvessem”, disse Roberts.
| DISCUSSÃO SOBRE COMPETIÇÃO, TAMBÉM NOS EUA |
Se no Brasil ainda se aguarda uma discussão regulatória sobre a chegada das teles ao mercado de TV paga, nos EUA a briga se dá no mesmo tipo de arena, mas com uma posição surpreendentemente explícita do agente regulador (no caso, a FCC). Kevin Martin, chairman da agência reguladora norte-americana, foi muito enfático ao falar para uma palestra de milhares de operadores de cabo dos EUA, na abertura da Cable 2007. “A política que eu sigo é em favor da indústria de cabo, quando isso significa fomentar a entrada do cabo onde ela será competitiva, como é o caso da Internet e do mercado de voz. Mas também é uma política ruim para o operador de cabo quando ele é o dominante e quando outras empresas querem entrar para competir no mercado de vídeo”. Dito assim foi uma boa forma de azedar ainda mais as relações entre a FCC e os operadores de cabo dos EUA, que estão trocando farpas ultimamente. Ainda que Martin tenha reconhecido o trabalho fundamental das empresas de cabo em investir para expandir o mercado de banda larga, ele não se furtou a tocar nos temas polêmicos. “Eu tenho TV digital, dois DVRs, três pontos de TV por assinatura, acesso banda larga e uma rede Wi-Fi na minha casa, tudo contratado de uma operadora de cabo”, disse Martin, para tentar diminuir a antipatia da platéia. “Mas eu quero que as operadoras de cabo não me obriguem a contratar um canal para eu ter outro, e quero que elas ofereçam aos seus assinantes os conteúdos gratuitos que as emissoras de TV aberta estiverem criando e oferecendo”, disse, entrando em duas polêmicas ao mesmo tempo: a venda de conteúdos à la carte (canal a canal) e a compulsoriedade da distribuição dos conteúdos de multiprogramação das emissoras de TV aberta. São dois assuntos que a indústria do cabo evita discutir há pelo menos cinco anos.assinantes ao todo.
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