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AGOSTO 2006 - Nº 163 ÍNDICE

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Em terra de teles, quem tem conteúdo é rei

da Redação

No momento de maior ebulição da indústria de TV paga nos últimos anos, programadores ocupam a posição mais confortável

Como mostram as matérias a seguir nessa reportagem especial sobre o mercado de TV por assinatura, preparada durante e após a ABTA 2006, que aconteceu em São Paulo no início de agosto, há um momento de ebulição na indústria. Isto ocorre em função da concretização de serviços convergentes e da entrada de novos players, sobretudo empresas de telecomunicações. E se existe alguém que pode se dar bem com este momento de ebulição é o setor de programação, o setor que fornece os conteúdos para a indústria de TV paga. Nada do que acontecerá no futuro, seja com novos serviços, seja com empresas de telecomunicações, poderá dispensar o conteúdo, quer na forma de canais, na forma de portais, ou na forma de programação sob demanda. Dizer que “o conteúdo é rei” é um chavão que já tem mais de uma década, mas que soa mais atual do que nunca. Afinal, nem as teles nem as operadoras de cabo são as donas do principal ativo entregue.

Durante o Congresso ABTA 2006, as teles vieram, pela primeira vez, explicar suas estratégias para a entrada no mercado de TV paga. Fora dos holofotes, tiveram reuniões com programadores, discutiram modelos e analisaram a indústria. E estas mesmas empresas de telecomunicações que chegam com um discurso novo se dão conta que os desafios na área de conteúdo são grandes e que as conversas demoram a se transformar em negociações, ou, melhor, em contratos. Há modelos já implantados há mais de uma década na TV por assinatura que parecem não estar sendo flexibilizados para o novo mundo que se abre. Tanto que as teles já sinalizaram até que poderiam participar de agremiações ou associações para fins de negociação de conteúdo. Sugerem, como disseram Gilberto Sotto-Mayor, diretor de desenvolvimento de negócios da Telefônica e responsável pelo projeto de DTH da empresa, e Alberto Blanco, que tem a mesma função na Telemar, que gostariam de aumentar o lobby junto às empresas de TV paga para baixar o custo de programação.

As empresas de telefonia, como se sabe, têm pouca experiência na área de conteúdo, mas já estão envolvidas com isso, seja na área de telefonia celular, seja nos portais banda larga ou mesmo investindo em empresas produtoras de programação. Blanco, da Telemar, notabilizou-se no mercado ao criar formatos de conteúdos diversos para a operação móvel da operadora, a Oi.

Nenhum novo player até agora falou em criar novos conteúdos – o máximo que se fala é em novos serviços, com o DVR e o vídeo sob demanda (VOD). Por outro lado, todos os grandes programadores com atuação no Brasil afirmam que estão sendo procurados pelas teles para negociações. Todos esperam, obviamente, um crescimento do mercado, sobretudo os que hoje têm menos espaço de crescer na atual conformação da TV paga, com predomínio de grandes programadores.

Há muita cautela no ar do lado de quem sabe o valor do produto que tem; afinal, os programadores recebem hoje em torno de 25% a 30% das receitas dos operadores e não querem arriscar perder as boas parcerias existentes.

Os detentores dos ditos conteúdos relevantes representam, individualmente, os maiores gastos das empresas operadoras de TV por assinatura - o que não deve ser diferente quanto aos players de telefonia que resolvam oferecer vídeo. As teles já perceberam o tamanho da briga e tateiam o terreno.

Condições

Os grandes programadores da TV por assinatura, os que detêm os canais capazes de atrair assinantes em peso para o serviço, não querem ver seu produto depreciado, ser vendido a preço de banana ou de graça no caso de as teles entrarem para valer dando o conteúdo de TV como “brinde”, um dos temores dos atuais operadores de cabo, MMDS e DTH.

Como diz Vera Buzanello, VP sênior de distribuição dos canais Discovery para a América Latina e Ibéria, há interesse em estar disponível nas novas plataformas, desde que: 1) a questão regulatória seja resolvida; 2) haja uma preocupação de longo prazo na parceria. Segundo ela, o programador tem como preocupação saber como será o trabalho do novo operador, onde o produto estará e, principalmente, a questão do valor percebido. “Tem de haver transparência e, sobretudo, coerência”, afirma a executiva. Em tempo: a Discovery, diferentemente de muitos programadores pan-regionais, até a feira da ABTA não havia fechado nenhum contrato com a Telefônica, no Chile, muito embora já integre o seu serviço de IPTV na Espanha, o Imagênio.

Outros grandes na área de conteúdo para TV por assinatura como Fox, Bandeirantes, Turner, Net Brasil (canais Globosat), HBO e DLA (Digital Latin America) também mantêm conversas com as teles.

A operação brasileira de satélite da Telefônica busca soluções, a exemplo dos acordos já fechados com a tele espanhola para as operações de TV paga no Peru e no Chile. “Não é uma negociação complicada, até porque não vamos quebrar o padrão de negociação que temos com as operadoras de TV por assinatura”, garante o vice-presidente da Fox Latin America, Gustavo Leme. E a parceria da Fox com a Telefónica não pára por aí. Os canais da Fox, de acordo o vice-presidente sênior da Fox Latin America, Carlos Martinez, também farão parte da operação de IPTV que a tele lançará no Chile entre os meses de setembro e outubro.

ABTA 2006: público recorde

Durante a ABTA 2006, 11 mil pessoas passaram pela feira e pelo congresso. O evento, que aconteceu entre os dias 1º e 3 de agosto, em São Paulo, reuniu os principais líderes da indústria e profissionais diretamente envolvidos no dia-a-dia do setor. Paralelamente aos debates, foram realizados os Seminários de TV por Assinatura (STAs), voltados aos profissionais de nível operacional. O Congresso contou com 750 pessoas e os STAs reuniram 3 mil profissionais. Foram ainda 350 profissionais de mídia presentes, entre jornalistas, fotógrafos, equipes de TV e assessores de imprensa.

O Grupo Bandeirantes, que já é parceiro das teles em suas operações de celular, também conversa para ter seus canais BandNews, BandSports, Play TV e Terraviva com a prestadora espanhola, além de uma adaptação dos conteúdos dos canais da Band (em formato de co-produção), para distribuição nas operações de DTH e IPTV da Telefónica na América Latina.

“Ainda não há uma negociação formal, mas desde que exista um novo operador de TV paga, com as aprovações necessárias, a Net tem todo o interesse em negociar os canais da Globosat”, afirma o diretor geral da Net Brasil, Fernando Ramos.

Já no jantar promovido pela HBO com operadoras de TV por assinatura durante a ABTA 2006, pela primeira vez havia uma mesa reservada para uma operadora de telecomunicações: a Telefônica.

A DLA, empresa que empacota e entrega conteúdos para video-on-demand e pay-per-view, além de alguns conteúdos para a programação regular de operadoras digitais, também confirma estar em negociações com a Telefônica, para Brasil e Estados Unidos, informa Antônio Barreto, CEO da empresa.

É claro que há pouco conteúdo efetivamente fechado para ser oferecido pelas teles. Exceção é a Buttman, tradicional produtora de conteúdos adultos mas nem tão tradicional no mercado de TV paga. Segundo Marcelo Gomes, diretor da empresa, já há um contrato com a BrT para o fornecimento de 30 horas de vídeos adultos para o teste de vídeo sob demanda. “O contrato vale para todo o nosso acervo de DVD, que será disponibilizado para esta primeira fase de video-on-demand e também para a segunda fase do projeto de IPTV da BrT, que prevê grade de programação, mas que ainda depende de regulamentação da Anatel”, conta Gomes.

O canal de TV da Buttman já está sendo distribuído pelas operadoras de TV a cabo Vivax, Big TV, Cabo Mais, TV Show e estreou em julho na Way TV, recém adquirida pela Telemar.

Se a Brasil Telecom (BrT) conseguir cumprir o cronograma estabelecido para o piloto de IPTV, a tele deverá estar pronta para lançar o serviço comercialmente ainda em dezembro deste ano, espera a programadora.

A partir do mês de setembro, a BrT terá 500 set-top boxes testados em Brasília para avaliar a usabilidade dos serviços de video-on-demand.

Sem mudar

Os programadores, de forma geral, tampouco admitem que baixariam seus próprios custos para chegarem à classe C – ninguém gosta de admitir que pode integrar um pacote barato, embora já tenham canais perfeitos para este público. Os programadores, principalmente para o mercado de publicidade, vangloriam-se de ter no seu target majoritariamente o público A/B. Há também muita resistência por parte dos provedores de conteúdos nas tentativas de popularização do serviço de TV paga – tome-se de exemplo o caso dos antenistas no Rio. O acordo envolvendo a Net, antenistas da comunidade de Vila Canoas e a Anatel regulariza, pela primeira vez, a oferta de um sistema de TV paga a comunidades carentes, mantendo a responsabilidade da concessionária de cabo. No momento, a sua maior barreira de crescimento envolve programadores, que resistem em oferecerem seus canais e este tipo de serviço, popular e barato por natureza. Do outro lado, carece de interesse ao usuário um pacote sem nenhuma marca importante.

Enfim, o conteúdo top desfruta hoje da confortável posição de poder estudar cautelosamente para quem, em que condições e a quanto aceita se vender.

Enquanto não houver um fato novo no segmento, que traga alternativas de qualidade e comercialmente viáveis aos atuais players da programação, são eles que vão reinar neste negócio, ditando as regras para quem quer que os carregue.

 

Novos vizinhos

Telefônicas apresentam na ABTA suas estratégias para o mercado de TV, mas enfrentam resistência dos operadores atuais

A ABTA 2006 foi um evento para que as empresas de TV por assinatura mostrassem os crescentes números de penetração dos serviços triple-play, o avanço da banda larga, os pacotes digitais, as perspectivas de crescimento da Sky e da DirecTV após a fusão, o fim da exclusividade de programação... Tudo isso estava lá, mas o que realmente marcou a edição deste ano pode ser resumido em uma frase do diretor de desenvolvimento de negócios da gigante Telefônica, Gilberto Sotto-Mayor, que participou de debate no evento: “Para ganhar tempo, decidimos partir para tecnologias consolidadas de TV por assinatura”. Sotto-Mayor referia-se à estratégia da Telefônica de entrar no mercado de TV paga neste segundo semestre com um serviço de DTH. Mas a sua colocação poderia muito bem ter sido feita pelo diretor de desenvolvimento de negócios da Telemar, Alberto Blanco, presente na mesma mesa de debates. No caso da Telemar, a opção foi pela “tecnologia consolidada” do cabo.

A empresa, como se sabe, adquiriu, no final de julho, a Way TV, uma operadora de TV a cabo mineira que atua nas cidades de Belo Horizonte, Poços de Caldas, Uberlândia e Barbacena. Assim, a tônica da ABTA 2006, aquilo que se comentou nos corredores do evento, aquilo que saiu com grande destaque na imprensa foi, simplesmente, “as teles chegaram ao mundo da TV por assinatura”.

Os significados disso são grandes para o universo da televisão. São novos investidores, com grande apetite, novos compradores de programação, novos compradores de equipamentos, novas empresas contratando mão de obra. Mas, por outro lado, e isso também teve grande destaque na ABTA 2006, a chegada das teles pode significar riscos reais de sobrevivência para as empresas até então estabelecidas em função da sua agressividade competitiva. Afinal, o mercado de TV paga tem por trás uma indústria que fatura, no Brasil, cerca de R$ 5 bilhões ao ano (estimativa para 2006).

O mercado de telecom gira mais de R$ 100 bilhões. Só a Telemar deve faturar este ano cinco vezes mais do que a TV por assinatura fatura como um todo.

A compra da Way TV, realizada por R$ 132 milhões, significa menos do que um terço do lucro da tele no primeiro semestre. “Tenho convicção de que elas (teles) praticarão dumping”, disparou Francisco Valim, presidente da Net Serviços, logo na abertura do evento.

O presidente da Brasil Telecom, Ricardo Knoepfelmacher, que foi o interlocutor de Valim para a frase acima, disse que as empresas de TV por assinatura não são mais “semi-quebradas”. E lembrou que a própria Net Serviços tem como acionista uma empresa de telecomunicações, a Embratel. “Portanto, esse discurso não cola mais. É um discurso que valia para a velha Net, não para a nova Net, pós-Telmex. O jogo mudou. Sempre haverá espaço para empresas boas”, defendeu-se. Knoepfelmacher acredita que a entrada das teles vai permitir que o mercado se desenvolva. “Ao invés de imaginar que vamos competir, a entrada das teles vai ampliar o mercado para todo mundo”, disse ele. Independentemente destas discussões, Telemar e Telefônica, que estão mais avançadas, preparam as suas estratégias.

A Telefônica quer lançar o seu DTH até o final do ano, ainda de forma experimental. “A estratégia está dentro da oferta do triple-play e independe do arcabouço regulatório”, disse o responsável pelo projeto, Gilberto Sotto-Mayor. A oferta é pan-regional, parte de uma estratégia em cinco países, o que garante escala. “A Telefônica está desenvolvendo um plano de negócios para determinar os focos geográficos da oferta”, disse Sotto-Mayor, sem revelar se a tele atuará fora do Estado de São Paulo. Por enquanto, a operação deve ser centralizada em cada país, assim como é hoje no Chile e no Peru, onde a empresa já atua em TV paga. “Mas buscamos a maximização das redes e a idéia é utilizar a escala”, disse o executivo.

Outras opções

Entrar no DTH, contudo, não invalida nem muda a estratégia da empresa de investir em serviços de IPTV, por redes de banda larga. A estratégia está mantida, sobretudo para serviços de video-on-demand. Já sobre a possibilidade de implementar uma rede de fibras ópticas até a casa do assinante, como acontece nos EUA, Sotto-Mayor avalia que isso não deverá acontecer no médio prazo no Brasil, cuja realidade das redes está mais próxima à da Europa. “Nos Estados Unidos a telefonia fixa é mais antiga, por isso optou-se pela tecnologia Fiber to the Home (FTTH). Na Europa as redes de telecomunicações são mais recentes, o que fez que se disseminasse mais rapidamente o IPTV sobre ADSL, assim como faremos no Brasil”, afirmou. “Hoje a realidade brasileira é ADSL, fio de cobre e DTH”, completou.

A Telemar tem como prioridade, por sua vez, a oferta de serviços em redes de cabo, pelo menos em Belo Horizonte e demais cidades operadas pela Way TV. A explicação para a estratégia de comprar uma operadora pronta vem de Alberto Blanco: “Resolvemos o problema da concorrência em Belo Horizonte e vamos ter uma experiência prática para modelos e para a operação”. Ele criticou abertamente a política de preços dos serviços de TV paga existente no Brasil. Disse que é um produto de elite, que chega à classe A e B apenas. “Acredito que com a competição, a exemplo do que aconteceu com a telefonia celular, os modelos vão mudar e os custos, cair”, disse, dando a entender que a Telemar terá uma estratégia voltada para um outro público, mas sem dar detalhes.

Ele reconhece, contudo, que não será fácil mudar certos paradigmas de custo, como os de programação. “Proponho até que nós e as empresas de cabo trabalhemos em conjunto para reduzir os custos dos canais”, disse, em tom de brincadeira.

A Telemar não pretende, em relação às redes, ficar restrita ao HFC, tecnologia utilizada pelas operadoras de cabo. “Mesmo em Belo Horizonte, a idéia é integrar redes e oferecer serviços também por meio de plataformas de IPTV, por exemplo, onde for necessário”.

Ricardo Knoepfelmacher, da Brasil Telecom, vê as parcerias com empresas de conteúdo, satélite, e TV por assinatura como fundamentais para a oferta de IPTV. “Nossa oferta será conjunta. Não descartamos nem mesmo parcerias com empresas que oferecem DTH (TV por satélite)”, disse o executivo. A empresa não descarta comprar empresas de TV por assinatura, como fez a Telemar.

“Dentro da nossa região não surgiu nenhuma operadora de TV à venda. Se aparecer, nós analisaremos o ativo”, informou o diretor financeiro e de relações com os investidores da BrT, Charles Putz, durante teleconferência para analistas de mercado no começo do mês. Mas mesmo colocando-se como compradora, a Brasil Telecom pretende, em pouco tempo, lançar serviços de video-on-demand pela plataforma IPTV sobre redes ADSL. Recorde-se que a empresa tem um acordo de revenue share com a NEC, fornecedora da plataforma de IPTV, o que reduzirá o tempo para se atingir o break even nesse novo negócio.

Parcerias

O discurso das parcerias também sai da boca de Luiz Eduardo Baptista (Bap), presidente da Sky/DirecTV (leia entrevista à pág. 38). Para ele, esse é o caminho natural, ainda mais para uma operadora de DTH.

“A experiência na venda de serviços de televisão é das empresas de TV paga, e fazer bem uma coisa é melhor do que fazer três coisas diferentes e nenhuma delas direito”.

Alexandre Annenberg, diretor-executivo da ABTA, foi outro que temperou seu discurso com palavras de parceria e receptividade para empresas de TV paga. Segundo Annenberg, empresas de televisão aberta, empresas de TV paga e empresas de telecomunicações têm, cada uma, virtudes e deficiências. Na oferta de serviços convergentes, as qualidades de cada uma podem se somar para compensar as deficiências do outro. “As empresas de telecomunicações não sabem como vender conteúdos para o assinante. Nós não temos numeração, por exemplo. São coisas que se complementam”.

Leila Loria, diretora geral da TVA, também mantém, pelo menos em discurso, uma linha de convergência de interesses com as empresas de telecomunicações. “A questão do tamanho das empresas (de telecomunicações e TV paga) é de fato preocupante, principalmente quando se pensa em competição. Mas, resolvida esta questão, vejo interesses que se somam. As empresas de TV pagas, por exemplo, estão muito mais adiantadas na forma de tratar e dialogar com o consumidor”.

Mas o maior player do mercado de TV por assinatura, com o maior poder de fogo e, naturalmente, com mais espaço a perder, é muito mais duro em relação à chegada das teles. Para o presidente da Net Serviços, Francisco Valim, “com essa legislação (de TV a cabo) não existe parceria possível”.

A legislação. Este promete ser o ponto central das discussões entre a Telemar e a Net Serviços nos próximos meses. A ABTA, nas palavras de Alexandre Annenberg, promete fazer um levantamento sobre as condições jurídicas para a entrada das teles e, havendo necessidade, ir à Justiça para barrar os entrantes. Mas outros operadores de TV por assinatura ligados à associação consideram que esta briga é, no longo prazo, inútil. Concordam que não existe razão lógica para impedir a entrada de um investidor, preservadas as condições de competitividade.

Para tentar barrar a Telemar, a Net baseia-se no Artigo 15 da Lei do Cabo, que apenas libera às “concessionárias de telecomunicações” a autorização para operar o serviço “no caso de desinteresse de empresas privadas”. Há ainda no contrato de concessão das teles um item complicado para a Telemar: a cláusula 14.1, parágrafo 1º do contrato diz que “ressalvadas as hipóteses previstas em lei específica, concessão ou autorização de Serviço de TV a Cabo (...) não será outorgada nem transferida pela Anatel à concessionária, suas coligadas, controladas ou controladora, até que seja expressamente revogada tal vedação”.

Mas existem fatos a serem considerados. Primeiro, o fato de que a Lei do Cabo foi feita ainda em um ambiente em que concessionárias de telecomunicações eram estatais. Depois, o fato de que a Lei Geral de Telecomunicações prega que, em serviços privados, a “liberdade é a regra”. E ainda o fato de que o contrato de concessão das teles, ainda que um ato voluntário, impor uma limitação que não foi submetida ao Conselho de Comunicação Social, como manda a Lei do Cabo.

Há ainda “exceções” a serem consideradas, nas palavras do conselheiro da Anatel José Leite Pereira Filho. Por exemplo, o fato de que há, no Brasil, concessionárias de telecomunicações que são, em suas áreas de concessão, também concessionárias de cabo. É o caso da operação de TV a cabo da CTBC Telecom, na cidade de Uberlândia (MG), operação esta que justamente concorre com a concessão da Way TV.

A Anatel mal começou a analisar o assunto, mas é forte a tendência dentro da agência de permitir a entrada da Telemar sob o argumento de que isso representaria maior possibilidade de competição no setor. A agência sabe que uma decisão favorável à tele neste caso será o precedente necessário para permitir a participação de empresas de telecomunicações em futuros processos de licitação para novas outorgas.

De qualquer maneira, devem surgir polêmicas, e parte delas terá, eventualmente, que ser tratada em um contexto de atualização da legislação existente. Nessa linha foi a manifestação do ministro das Comunicações, Hélio Costa, que esteve no evento. Ele propôs que se crie um grupo de trabalho para resolver as questões polêmicas.

“O novo grupo de trabalho deve envolver o Ministério das Comunicações e a Casa Civil, estudando o assunto para que não se cometam injustiças”, disse o ministro. “Se não resolver a questão, pelo menos discutir”, completou, lembrando que ela deve se integrar a uma discussão para um projeto de Lei de Comunicação que o governo pretende apresentar ao Congresso Nacional em 2007.

 

Momento de colheita

TV por assinatura vive melhor momento da história recente, com crescimento principalmente na base de assinantes de múltiplos serviços.

Enquanto a perspectiva de entrada das empresas de telecomunicações no setor de TV por assinatura gera discussões sobre os modelos de negócios resultantes, sobre as possibilidade de expansão ou concentração do mercado e sobre o interminável problema regulatório, a ABTA 2006 também foi o evento em que a indústria mostrou os maiores avanços em termos de alternativas de produtos e novos serviços em sua história.

Chris Torto, presidente da Vivax e do conselho da ABTA, tratou de dar a mensagem de otimismo: “a TV por assinatura é o segundo maior segmento entre os mercados de mídia, perdendo apenas para a TV aberta. Somos, portanto, um setor vencedor”, disse, ao abrir o evento.

Pela primeira vez, por exemplo, as operadoras mostraram a realidade da oferta de serviços triple-play. Já são mais de 70 mil assinantes de pacotes combinados, banda larga, voz e, é claro, vídeo.

A experiência já se expressa em números. As três maiores operadoras de TV a cabo, por exemplo, estão registrando percentuais significativos de vendas de pacotes combinados, que incluem além da TV paga, serviços de banda larga e eventualmente voz. No caso da Net Serviços, segundo Leonardo Pereira, diretor financeiro da empresa, 10% das vendas da empresa hoje já correspondem aos três serviços combinados. A Vivax, segundo Gilson Granzier, diz que 35% de suas vendas são de pacotes combinados de TV paga e banda larga. Já a TVA, segundo Eduardo Malagoni, já tem cerca de metade de suas vendas combinando voz e dados.

Em relação aos custos de aquisição, todas estão com parâmetros muito semelhantes: cerca de R$ 500 por assinante digital, R$ 400 para banda larga e cerca de R$ 300 por assinante analógico.

A Net também comentou, em sua participação no evento, a experiência da oferta combinada. “A cultura da oferta de serviços triple-play teve que ser cuidadosamente trabalhada dentro da empresa. Um exemplo bom é a questão das redes internas. Tivemos, por exemplo, que desenvolver know-how na instalação de redes de par trançado na casa do assinante, porque essa é a rede que o serviço de voz usa. É uma tecnologia simples, mas representa um esforço de atendimento que não se vê no caso das teles, por exemplo, que delegam ao próprio assinante a instalação das redes internas”, explicou Nicola Santos Dutra, consultor da operadora, que apresentou a experiência da empresa durante a ABTA.

“O que as empresas de TV por assinatura sabem é que o cliente irá recorrer à operadora para resolver qualquer problema, desde a pilha do controle remoto até um problema na rede. Somos doutores em atendimento do usuário. Acho que as teles ainda não concluíram seus estudos nessa área”, diz Virgílio Amaral, diretor de tecnologia da TVA.

Temas tradicionais da realidade das empresas de TV paga também não ficaram de fora. Alexandre Annenberg, da ABTA, voltou a levantar a questão tributária ao fazer um pedido para o prefeito da cidade de São Paulo, Gilberto Kassab, presente na abertura do congresso. Annenberg pediu apoio do prefeito à proposta de emenda constitucional aprovada no Senado pela qual a TV paga passa a recolher ISS, e não mais ICMS. “É uma proposta de imensa importância para o setor e de grande valor para os municípios, como São Paulo”.

Outro ponto relevante foi a referência feita pelo presidente da Anatel, Plínio de Aguiar Jr.,à parceria feita entre a Net e a operadora TJ, que atende à comunidade carente de Vila Canoas. “É uma iniciativa muito importante no sentido de popularizar a TV por assinatura. Mas eu faço um pedido às empresas de TV a cabo: levem a estas comunidades também a banda larga”.

Bons ventos

Nos debates que trataram da conjuntura econômica, analistas e diretores das áreas financeiras das MSOs foram unânimes em apontar o bom momento vivido pela indústria em relação ao mercado de investimentos. É consenso quase geral que hoje as empresas estão com condições de atrair mais investidores, o que já se pode notar desde o começo do ano, com a abertura em bolsa da Vivax, a venda da Way TV para a Telemar, os bons resultados financeiros da Net Serviços e assim por diante. Todos os olhos dos analistas estão voltados agora para a TVA, única das operadoras que ainda não fez algum movimento novo na área financeira. Especula-se que a empresa analise a abertura de capital em bolsa, mas também há quem aposte que, com a entrada do sócio sul-africano na Abril, o grupo Nasper, que investiu US$ 422 milhões na empresa e tem hoje 30% do capital da controladora da TVA, haja a possibilidade de investimentos de outras naturezas na empresa.

O grupo Nasper é muito forte e familiarizado com a realidade da TV por assinatura, principalmente na Europa.

E independentemente de novos financiamentos e alternativas de alavancar o crescimento, o fato é que todos esperam que a TV por assinatura no Brasil cresça um pouco acima de 10% este ano em termos de base total de assinantes, mantendo a boa média dos últimos dois anos. Na banda larga, as estimativas de crescimento passam dos 60%.

Diante disso, o futuro da indústria foi pintado com cores fortes no principal evento do setor. Para Antônio João Filho, COO da Vivax, não existe a necessidade de nenhuma mudança de rumo.

“A disputa no futuro será por quem entrega a melhor banda larga para o usuário. E por banda larga entenda-se também o serviço de vídeo, que requer muita capacidade da rede. Fica claro que o modelo de TV por assinatura é competitivo, a ponto de atrair as teles para ele. Já temos redes de altíssima capacidade. Sem esforço praticamente nenhum, podemos oferecer hoje conexões a velocidades de 40 Mbps, por exemplo. Então, não somos nós que temos que mudar”.

STA: a força da qualificação

Mais uma vez a Feira e Congresso da ABTA abrigou os STA - Seminários de TV por Assinatura, série de sessões de treinamento e qualificação dos profissionais da indústria patrocinada pelo Seta (o sindicato das empresas de TV paga). Os 3 mil participante puderam aumentar seus conhecimentos técnicos, sobretudo na área de multiserviços, e gerenciais, com palestras de profissionais especializados. Houve muito espaço também para a descontração, como na palestra-show da Tradicional Jazz Band (foto) e na grande final da primeira fase do concurso Dê a Dica, que incentiva os profisisonais do setor a conhecer melhor o conteúdo dos canais.


Fornecedores apostam na convergência

Expositores da feira demonstraram equipamentos e soluções para a digitalização das pequenas redes e IPTV.

Entre os expositores de tecnologia e equipamentos na feira ABTA 2006, o assunto era exatamente o mesmo do Congresso ABTA: a entrada das teles na TV por assinatura e, em igual medida, a digitalização das redes de cabo e MMDS, sobretudo das pequenas operadoras. Além disso, os fornecedores fazem uma outra aposta para aumentar suas vendas: novas tecnologias como o DVR (digital video recorder). Uma análise superficial dos produtos demonstrados mostra ainda que os equipamentos estão convergindo e diferentes tecnologias ficam cada vez mais parecidas. A Scientific-Atlanta, que já participou da feira no estande da Cisco, empresa para a qual foi vendida recentemente, apresentou no evento uma família de set-top boxes que, à primeira vista, pareciam iguais, mas que na verdade tinham versões para trabalhar com cabo digital ou IPTV. Estavam no estande os decoders da linha média, com um sintonizador embutido e DVR, e os da família mais avançada, com dois sintonizadores, DVR e até três saídas para TV, que podem enviar sinais diferentes para cada aparelho.

O engenheiro da fabricante Luiz Fattinger explica que essa tecnologia permite que cada casa tenha apenas um decoder/DVR instalado, capaz de alimentar todos os televisores da casa, funcionando assim como um media center. Para selecionar os canais, usa-se um controle remote baseado em radiofreqüência, permitindo trocar o canal em um televisor que não está no mesmo cômodo onde está o decoder. Toda a linha pode ser SDTV ou HDTV, trabalhando com compressão MPEG-2 ou MPEG-4. A linha apresentada, segundo Fattinger, é a primeira da Scientific-Atlanta baseada em padrões abertos.

Chamava atenção ainda na feira uma linha nova de equipamentos, o OnlyTV, demonstrado pela Nextvision.

São aparelhos convergentes, capazes de integrar serviços de TV por assinatura e TV aberta, DVR, uma central de mídia pessoal e serviços IP, como video on demand e VoIP.

O equipamento é quase um computador pessoal, mas com a facilidade de uso de uma TV. Por enquanto, é capaz de sintonizar os canais abertos ou de decoders conectados a ele. A fabricante negocia ainda com parceiros de TV por assinatura para que a caixa possa ser usada como decoder também. Além disso, o serviço sob demanda usa uma rede IP convencional para receber conteúdo de “locadoras virtuais” instaladas nos aparelhos. Graças à interface IP, é possível ainda ler e enviar e-mails e fazer ligações VoIP, usando um aparelho de telefone digital ligado a uma das portas USB do equipamento. O disco rígido interno pode ser usado para gravar o conteúdo da TV (DVR) ou mesmo armazenar dados importados do PC, permitindo acesso a músicas, vídeos e fotos. Segundo Marcos Galassi, diretor da empresa, a Nextvision deve iniciar a distribuição no varejo, com pelo menos duas mil caixas, antes mesmo de ter acordo fechado com alguma operadora de TV por assinatura.

A Globaltech, também presente à feira, aposta na digitalização do cabo e do MMDS para distribuir seus equipamentos que, segundo Bruno Tombi, da área de vendas da empresa, são de baixo custo. Além disso, a empresa apresentou uma caixa para IPTV baseada em compressão Windows Media 9, capaz de receber sinais SD e HD.

A demonstração feita no estande do fabricante contava com transmissão de dados a 6,4 Mbps.

Acesso

A holandesa Irdeto aposta suas fichas na TV digital para crescer no Brasil com sua plataforma de acesso condicional e de soluções de proteção de conteúdo. O diretor de vendas para América Latina e Caribe da Irdeto, Giovani Henrique, explica que mesmo a TV digital aberta precisa proteger o conteúdo com alta definição de áudio e vídeo, porque se trata de uma rede controlada. Foi pensando na oportunidade de mercado que se abre com a implementação da tecnologia no País que a Irdeto fechou parceria com a Visiontec, uma empresa brasileira que apresentou ao Ministério das Comunicações um protótipo de set-top box de TV digital ao custo de R$ 80, de acordo com as especificações do governo.

“Com a parceria, todos os set-top boxes de TV digital produzidos pela Visiontec terão o acesso condicional da Irdeto”, conta Henrique.

A Conax, além das soluções de acesso condicional, mostrou uma tecnologia para compra de conteúdo pay-per-view usando o celular como canal de retorno, enviando uma SMS para a operadora de TV por assinatura. Com o uso da tecnologia, não é necessário investimento na compra set-top boxes sofisticados.

A Tecsys apresentou na ABTA 2006 uma linha de produtos para operadores e programadores que conta com com soluções de acesso condicional, conversor e encoder, “tudo nacional”, orgulha-se Marcos Freire Martins, diretor geral da empresa. O executivo explica que seus encoders permitem transmitir três canais em um link de 20 Mbps, e comemora as exportações de alguns de seus equipamentos. Segundo ele, o modulador TS-5050 tem 58% da produção exportada. Outro nicho importante explorado pelo fabricante é o de TVs corporativas. Sergundo ele, Wal-Mart e Sam’s Club, Magazine Luiza e as escolas Wizard usam a tecnologia em suas TVs, além de canais como TV Asa Branca, TV Rá Tim Bum e Buttman.