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cinema
Um festival de projetos
Daniele Frederico
Guarnicê concentra debates políticos e de mercado no Maranhão e destaca a produção nordestina em sua programação.
Entre os dias 13 e 19 de junho, a cidade de São Luís, no Maranhão, pôde conferir uma seleção dos melhores curtas e longas-metragens brasileiros e alguns estrangeiros, no 29° Festival Guarnicê de Cinema, promovido pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA), com patrocínio da Petrobrás S/A e Eletrobrás. Além da mostra competitiva de curtas-metragens (nas categorias filme e vídeo), os interessados puderam conferir mostras não-competitivas, concursos, oficinas, seminários, exibições ao ar livre, encontros, palestras e debates. Foram entregues prêmios para concursos extra-oficiais, como o troféu ABC-MA, o troféu Jangada (da OCIC/SIGNIS-Brasil) e o Prêmio Nego Chico. Entre os concursos oficiais, foram premiados também o melhor vídeo-clipe, vídeo de um minuto, comercial e tele-reportagem.
Entre os vencedores da mostra competitiva de curtas-metragens, os filme e vídeos nordestinos destacaram-se nas principais categorias.
O pernambucano “Rapsódia para um Homem Comum”, de Camilo Cavalcante, levou o prêmio de melhor filme pelo júri técnico, e “Marilza e a Lata de Leite Condensado”, de Michelline Helena, do Ceará, foi escolhido com o melhor vídeo nacional.
Além do prêmio de melhor filme nacional, Cavalcante levou também o troféu pela melhor direção, e Michelline, entre outros prêmios, levou o de melhor roteiro por “Marilza...” e pelo filme “O Amor do Palhaço”, escrito em conjunto com Armando Praça. O melhor diretor de vídeo foi Orlando Lemos, por “AnoniMato”, de Goiás.
Além desses, outros filmes nordestinos estiveram representados entre os vencedores do festival: “Dos Restos e das Solidões”, de Petrus Cariry, do Ceará, escolhido como melhor documentário; “Eletrodoméstica”, de Kleber Mendonça Filho, de Pernambuco, como melhor ficção; e “Infernos”, de Frederico Machado, do Maranhão, escolhido como melhor filme pelo júri popular. Também foram premiados vídeos de São Paulo, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Distrito Federal e Bahia.
Para regular os festivais
Os festivais não servem apenas para premiar os filmes e vídeos nacionais, mas também para levar o público de uma determinada cidade ao cinema. Devido à sua importância, a Ancine e o Fórum dos Festivais têm buscado, de maneira conjunta, a normatização das mostras e festivais brasileiros, com encontros e discussões, como o “Diálogo do Fórum”, que aconteceu durante o 29° Festival Guarnicê de Cinema, com a participação do superintendente de registro, controle e fiscalização da Agência Nacional do Cinema (Ancine), Aurelino Machado. A reunião contou com a presença de diversos representantes de festivais como do Cine PE, do Festival Brasileiro de Miami e do Festival de Gramado, além de Alfredo Bertini, presidente do Fórum dos Festivais.
O assunto principal discutido nesse momento é a criação de uma Instrução Normativa que regule os festivais e as mostras. Machado enfatiza que o intuito da IN não é fazer algum tipo de cobrança aos organizadores, mas buscar o registro de produtores e eventos e a isenção do pagamento de Condecine a obras produzidas exclusivamente para a exibição em mostras e festivais. “Nada será feito sem a aprovação das entidades representativas”, lembra Machado.
O superintendente ressalta que, embora a isenção para obras exibidas em mostras e festivais já exista, falta definir exatamente o que são esses eventos, para que a isenção seja concedida com critério. Uma das questões mais importantes é que os produtores de eventos se registrem no site da Ancine. “Não queremos ser ‘donos’ dos festivais, vamos apenas apoiar a atividade”, afirmou Machado.
Ele lembra ainda que todos os pontos propostos até o momento estão previstos em lei, e estão apenas sendo agrupados para a orientação dos festivais e das mostras.
De uma maneira geral, os representantes presentes concordaram que esse pode ser um bom caminho para regular os festivais. Além de registrar todos os eventos e auxiliar para que os filmes sejam exibidos de maneira regular, o que se busca é que o circuito possa ser mais bem organizado, evitando, por exemplo, que dois ou três eventos aconteçam simultaneamente.
O que for discutido, antes de tornar-se uma Instrução Normativa, deverá ser aprovado pela Diretoria Colegiada da agência, transformado em minuta, apresentado ao fórum e publicado para audiência pública. Recebidas as sugestões e absorvidas as plausíveis, a Diretoria Colegiada decide sobre a aprovação do texto. O superintendente acredita que as orientações devam entrar em vigor no final de 2006.
O Fórum dos Festivais estima que existam hoje cerca de 120 eventos do gênero regulares no País, com mais de 20 mil exibições anuais, para 2,5 milhões de espectadores.
Programadora Brasil
O Festival Guarnicê não se restringiu apenas a filmes e discussões sobre festivais. Durante os encontros realizados no Maranhão, foram anunciados projetos para o cinema nordestino e nacional, como o caso da Programadora Brasil, projeto da Secretaria do Audiovisual, operado pelo Centro Técnico Audiovisual (CTAv) e pela Cinemateca, que vai distribuir programas e filmes brasileiros para entidades jurídicas não-comerciais.
Inicialmente, o projeto tem 200 programas de filmes, agrupados por uma curadoria, que contam tanto com curtas quanto com longas-metragens, realizados nos últimos 20 anos sob editais. Para atender à demanda inicial, serão feitas cinco cópias de cada programa em DVD e VHS. Foi investido R$ 1,2 milhão no projeto.
Para fazer a adesão à programadora, essas entidades (que podem ser desde centros culturais até escolas públicas) devem ter condições técnicas para a exibição, e assumir um termo para garantir que tomarão os cuidados básicos com a cópia, como não danificar o produto e devolvê-lo no prazo estipulado.
Uma equipe realiza a identificação dos circuitos para encontrar cineclubes, TVs públicas e universitárias e centros de cultura que possam se interessar pelo projeto.
Em uma primeira etapa, será realizada uma revista com o acervo de filmes – que totalizam cerca de 500 títulos – e programas que podem ser requisitados pelos exibidores; um catálogo anual com esse mesmo conteúdo; e um site, que em um segundo momento pode disponibilizar ao interessado a opção de montar o seu próprio programa de filmes online. “Com esse projeto, pretendemos conhecer os circuitos que se encontram carentes de programação, oferecer a eles o nosso catálogo e, conseqüentemente, fazer o filme brasileiro circular”, diz José Araripe Jr., diretor do CTAv.
Para garantir a exibição destes filmes, o Ministério da Cultura deve lançar em breve um edital para a distribuição de cem kits de exibição para todo o Brasil. Os kits contêm um projetor, players e sistema de som, para a exibição de filmes em DVD e VHS.
Qualquer entidade pode inscrever o seu projeto, embora o alvo principal seja equipar os cineclubes já existentes. A Programadora Brasil deve dar suporte a esses cineclubes quanto à programação de filmes a ser exibida.
Segundo o secretário do Audiovisual, Orlando Senna, o Ministério da Cultura já tem os recursos para o investimento. A compra dos equipamentos custou, em média, R$ 1 milhão.
Além da Programadora Brasil e do projeto dos kits, foi anunciado no dia 14 de junho, durante o festival, o lançamento da Rede Audiovisual Nordeste dos Pontos de Cultura, com o objetivo de estimular o audiovisual na região, com trabalhos voltados à difusão, exibição, acervo, promoção de mostras e incentivo ao fomento nessa área. A discussão acontece desde 2005, e o encontro no Maranhão oficializou o lançamento.
A ação partiu dos Pontos de Cultura do Nordeste - ação integrante do Programa Cultura Viva do Ministério da Cultura - que trabalham com o segmento, com a parceria de cineclubes, Associações Brasileiras de Documentaristas (ABDs) e da Associação Nordestina de Cineastas.
Entre as propostas do grupo estão a criação de um acervo audiovisual da produção regional; a produção de vídeos pelos Pontos de Cultura; a implantação de salas de exibição digital em alguns pontos; a articulação de projetos de exibição itinerantes; e a atuação junto ao Parlamento e outras instâncias para a continuidade do Programa Cultura Viva. |