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cinema
Negócio da Índia
Daniele Frederico
Produtora brasileira prepara-se para a primeira co-produção com o gigante asiático;
diferenças vão além da cultura e atingem o formato de negócios.
Realizar uma co-produção com a maior indústria de cinema do mundo não é tarefa fácil. Prazos enlouquecedores, planilhas inimagináveis e infinitas diferenças culturais fazem de uma co-produção internacional um desafio e uma grafiticante experiência. A produtora brasileira Ana Cristina Costa e Silva, da Dharma Filmes, de Brasília, tem vivenciado exatamente esse choque de cultura e de formato de negócios ao realizar a primeira co-produção Brasil-Índia de um longa-metragem.
A história começou quando o distribuidor Helder Dacosta, da Tropical Storm Entertainment, trouxe para o Brasil a idéia de co-produzir o filme “Tamarindo”, do diretor e roteirista indiano Indranil Chakravarty, que seria ambientado em parte no Brasil e teria personagens brasileiros. Dacosta encontrou na Dharma Filmes a produtora que procurava e em seguida surgiu uma parceria com a Tristana Films, produtora de Chakravarty.
A união dos dois países foi um passo grande não só para o Brasil, que realiza a sua primeira co-produção com essa que é a maior indústria cinematográfica do mundo em volume de produção, mas também para a Índia, cujo mercado cinematográfico é voltado principalmente para o consumo interno, com poucas exportações. Ainda que a exibição aconteça também nos países produtores, o foco principal é o mercado internacional. Ana Cristina acredita que ainda que este seja um projeto arriscado na Índia – já que não se sabe como a audiência será impactada, visto que não é um filme para o circuito comercial – há grandes oportunidades no mercado mundial. “Os estrangeiros vão se interessar pela mistura de dois países considerados exóticos no mesmo filme”, diz a produtora.
A proposta do filme é mostrar a história de três gerações de uma mesma família, a partir da jornada de Flávio Noronha, brasileiro que parte em busca do pai que nunca conheceu. A árvore genealógica o leva a Goa, na Índia, de onde seu avô saiu em 1961, após a libertação do estado de Portugal. É nesse lugar que Flávio vai encontrar, além de uma jornada amorosa, as suas raízes familiares. O nome do filme, “Tamarindo”, justifica-se a partir de uma tradição indiana, segundo a qual, quando um parente deixa a sua casa, deve-se plantar uma árvore para ele. Assim, quando o avô de Flávio deixa Goa, é plantado um tamarindeiro. Ao chegar no local, o brasileiro reconhece a árvore, que até então só conhecia por meio de uma foto antiga.
Choque
O projeto teve início em 2000, com uma bolsa para a pesquisa preparatória do roteiro da India Foundation for the Arts (Ifa), braço indiano da Fundação Ford. Em 2001, a Fundação Oriente, baseada em Portugal, concedeu uma bolsa para a pesquisa de aspectos históricos da obra.
A importância das cenas brasileiras no filme fez com que os produtores buscassem uma reformulação do roteiro, que havia sido trabalhado pelo diretor indiano durante três anos, em colaboração com o autor Damodar Mauzo, de Goa. O roteirista Felipe Berlim foi contratado para a tarefa de corrigir e melhorar os aspectos brasileiros da história. Segundo Ana Cristina, as mudanças foram para que os espectadores brasileiros pudessem identificar-se mais com a história. “Apesar do conhecimento de Chakravarty sobre o País, ele considerou, por exemplo, que uma mulher separada do marido e com um filho era uma cena aceitável nos anos 80, em uma cidade do interior do Brasil, mas na verdade não éramos tão liberais assim”, diz a produtora.
As cenas do brasileiro recém-chegado na Índia também foram modificadas, já que o roteiro, escrito por um indiano, não previa o choque cultural sentido pelo personagem ao chegar a um lugar tão diferente de tudo o que conhecia. Parte dessas diferenças foi apontada por Ana Cristina que, ao visitar o país, percebeu elementos que poderiam ser incorporados ao filme, como a questão do trânsito na Índia, as suas cores e os seus sons, estranhos aos brasileiros. “O indiano não se vê exótico, mas nós o vemos dessa maneira”, afirma.
Essas diferenças culturais também fizeram com que a idéia de filmar todas as cenas em inglês cedesse lugar a uma história contada em três línguas: português, inglês e konkani, a língua nativa de Goa.
O projeto prevê filmagens em três locações: Goa, na Índia, e Cidade de Goiás e Rio de Janeiro, no Brasil. Em Goiás, serão gravadas todas as cenas em flashback do personagem, já que o diretor indiano ficou encantado com a cidade histórica, e os produtores brasileiros adoraram a idéia de filmar em casa, já que a Dharma está localizada em Brasília. Em cada país será utilizada uma equipe técnica local, com exceção do diretor de fotografia, que será o indiano Ranjan Palit. Grande parte do elenco também será brasileiro. Atores como Reynaldo Gianecchini e Sônia Braga estão interessados no projeto.
Negócio
Nem só de choques culturais sofreu a produtora brasileira. Ana Cristina teve também de aprender como acontece a busca por financiamento na Índia e adequar-se aos prazos de produção, já que no Brasil tudo acontece de maneira muito diferente e com o amparo do governo.
A principal diferença entre o cinema brasileiro e indiano é que aqui o cinema é subsidiado, enquanto na Índia, existe uma indústria estabelecida na qual os produtores têm de buscar investidores para o seu filme, além de obedecer a prazos apertados. “No Brasil, podemos arriscar ter uma linguagem mais transgressora, porque o filme é subsidiado, não tem o compromisso de dar lucro”, diz Ana Cristina. Segundo a produtora, na Índia é necessário ter um olhar um pouco mais comercial, já que é necessário dar retorno ao investidor. “Bollywood já tem uma fórmula conhecida e garantida. São filmes com três horas de duração que se baseiam no “star system” e na trajetória de um homem. É uma fórmula que funciona na Índia, e qualquer coisa que fuja disso assusta os investidores”, diz.
Assim, quando a produtora chegou à Índia com o projeto de um filme de arte e começou a procurar por investidores percebeu as primeiras diferenças em relação à maneira de fazer cinema no Brasil. Enquanto ela perguntava a eles se tinham interesse em ler o roteiro, saber como seria a história, eles diziam que queriam inicialmente ver o plano de negócios, com estimativas de lucro do filme no mercado nacional e internacional. Embora não soubesse exatamente como fazer esse “business plan”, Ana Cristina compreendeu que para eles era importante ter uma perspectiva comercial.
Após a entrega desse plano, ela perguntou novamente se eles gostariam de ver o roteiro. Mais uma vez, a resposta foi negativa. Antes de qualquer coisa, era necessário uma planilha de financiamento, com as estratégias de captação de recursos para produção. Terminadas as dúvidas sobre o financiamento, eles ainda quiseram ver o “recovery plan”, para saber como seria o reembolso do recurso investido.
Com tudo isso apresentado, ainda faltava o cronograma, para definir exatamente quando o filme ficaria pronto e quando seria exibido. Segundo Ana Cristina, os filmes indianos ficam prontos em seis meses, em média. Esses prazos apertados e a pressão por garantias de retorno do investimento se devem ao fato dos investidores pagarem juros altos pelo empréstimo do dinheiro nos bancos. “Estou fazendo todos esses processos novos seguindo o meu instinto, pois é um mercado totalmente diferente do nosso. Acho que o único mercado que pode ser comparado com a Índia em termos de competição é o de Hollywood, e mesmo assim, sem a emergência característica dos indianos”, compara Ana Cristina.
A produtora acredita ainda que a mistura dos dois países, por mais estranha que pareça, só tem a ensinar, especialmente sobre a auto-sustentabilidade de uma indústria de cinema. “Aqui, temos a preocupação com o conteúdo, com o roteiro, além de um olhar ocidental que ajuda o filme a se internacionalizar. Eles, em contrapartida, nos ‘puxam’ para a realidade de indústria, que desconhecemos aqui”, diz.
Com custo total de US$ 1,2 milhão, o filme já garantiu 50% do dinheiro com um investidor indiano, enquanto a outra metade dos custos depende da captação a partir das leis de incentivo brasileiras. A aprovação da Ancine para a captação de cerca de US$ 600 mil (R$ 1.365.743) para “Tamarindo”, no entanto, não garantiu o início da produção aqui ou mesmo na Índia. Embora as filmagens estejam marcadas para ter início em outubro e os investimentos estrangeiros estejam garantidos, a produção em Goa, que corresponde a 30 dias de filmagem (no Brasil serão 15 dias), não pode ser iniciada antes da resolução da questão do financiamento brasileiro. “O investidor indiano não vai colocar o dinheiro dele na produção enquanto não tivermos a nossa parte do dinheiro na conta”, diz Ana Cristina. “Esse é o nosso grande empecilho. Superamos todas as diferenças culturais e entendemos a produção deles, mas ainda somos muito dependentes nesse sentido”, conclui a produtora. |