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ABRIL 2006 - Nº 159 ÍNDICE

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A desconstrução da TV

Samuel Possebon, de Atlanta

Na NCTA ficou claro que o telespectador do futuro será diferente. E a indústria busca alternativas de modelo para uma TV sem grade de programação, feita pelo próprio usuário e aberta na Internet

No Brasil, parece que esta realidade ainda está um pouco distante, mas nos EUA e na Europa os grandes grupos de comunicação parecem já ter percebido que o modelo atual de televisão, cristalizado
ao longo de décadas de sucessos e boa aceitação popular, está derretendo.

“O consumidor é diferente hoje. Estamos falando de uma geração que tem entre oito e 28 anos e que não chega em casa à noite, senta na frente da televisão e dorme. É para essa geração que precisamos olhar”, disse Anne Sweeney, presidente da rede ABC (uma das três grandes redes abertas) e co-chairman do grupo Disney, durante a NCTA Cable 2006, o maior evento de TV a cabo do mundo, realizado em Atlanta no começo de abril. “Nem tudo tem que ter apenas um modelo de negócios!”. É assim que uma das executivas mais poderosas da indústria dos EUA se posiciona em relação ao que está acontecendo com o consumo de mídia. A Disney, diga-se de passagem, não tem a menor idéia do que está acontecendo, tanto que resolveu abrir gratuitamente suas principais séries na Internet apenas para tentar visualizar um modelo.

Em parceria com anunciantes, testará formas de manter a publicidade em conteúdos distribuídos pela rede e, medirá os hábitos de consumo dos telespectadores tradicionais quando confrontados com uma nova forma de distribuição.

Basicamente, o que viu nos debates da NCTA Cable 2006 foi a tentativa de os operadores de cabo dos EUA tentarem entender o que está mudando no mundo. E a constatação é que a televisão não mais será estruturada em uma grade de programação, não estará mais vinculada à localidade em que a pessoa mora (ou seja, poderá ser assistida de qualquer lugar do mundo) e talvez passe a ter parte (não se sabe quanto) de sua programação produzida pelo próprio usuário. Não é pouca mudança. Basicamente, são os três pilares mais cristalizados do modelo de televisão que estão em jogo. Tudo o que se faz hoje em termos de modelo de negócios, de venda de publicidade e em termos de audiência está baseado na estrutura de grade de programação, na idéia de que a televisão chega a uma determinada comunidade e que quem tem o controle sobre aquele conteúdo é o produtor e o distribuidor.

Já faz alguns anos que as apostas do que aconteceria com a televisão vão mais ou menos nesse sentido, mas em 2006 os fantasmas que atormentam o velho modelo de TV ganharam forma. O digital vídeo recorder (DVR, ou gravador digital), que não é uma invenção exatamente nova (existe desde 2002), passou a ser item de consumo obrigatório para o telespectador norte-americano. Um fenômeno curioso é que depois de atingirem a marca de 28,5 milhões de assinantes digitais em 2005 (já mais de 30 milhões a essa altura do ano), as operadoras dos EUA vêem o aumento da demanda de set-tops high-end, ou seja, set-tops com mais tecnologia incorporada. No caso da Comcast, por exemplo, 60% das caixas instaladas são preparadas para alta definição e com recursos de gravação incorporados (DVR). O DVR faz um tremendo estrago no modelo de televisão porque dá ao usuário a autonomia sobre a grade de programação. Ele assiste ao que quer, na hora que quer. Some-se a isso a crescente oferta de serviços de vídeo sob demanda (outra tecnologia nada nova), que finalmente decolaram nos EUA, principalmente impulsionados pela oferta de conteúdos antigos, gratuitamente ou a baixo custo, para fidelização de usuário.

Outra mudança sensível na forma de ver televisão é decorrente de uma tecnologia que surgiu no final de 2005 chamada Slingbox. É um dispositivo que digitaliza em tempo real os sinais que saem do receptor de TV paga e manda para a Internet (funciona apenas na banda larga). O proprietário dessa caixinha, desse dispositivo, pode assistir ao que está passando em sua casa em qualquer lugar do mundo em que tenha uma conexão (banda larga) com a Internet. Pode ser em um notebook, pode ser em um PDA com acesso, em um celular. O Slingbox mostrou para a indústria de TV paga
(e para a indústria de televisão como um todo) que no futuro as pessoas não precisarão mais estar em suas casas para assistir aos seus programas. Poderão estar em qualquer lugar, e isso quebra todos os paradigmas da televisão em relação a como ela é feita hoje.

A questão é: essas inovações são tendências? Os números ainda não assustam ninguém. O Slingbox não vendeu mais do que alguns milhares de unidades e mesmo os DVRs ainda têm uma penetração ínfima no universo de mais de 100 milhões de domicílios com TV nos EUA. O medo da indústria audiovisual é que aconteça nessa área o mesmo que aconteceu com a indústria fonográfica, que quando se deu conta do problema, já havia sido atropelada.

E há outro fato que começa a atormentar a indústria de televisão: é crescente o movimento de uma parcela significativa dos usuários rumo a conteúdos customizados ou feitos por outros usuários. Fenômenos que levaram a uma proliferação explosiva de blogs, fotoblogs, videoblogs e agora portais de conteúdo “caseiros” ou independentes, como myspace.com ou youtube.com, são preocupantes, porque mostram uma demanda que os grupos de comunicação não têm como atender. Se uma geração de futuros consumidores está crescendo acostumada a assistir coisas que são feitas por outras pessoas, o que as empresas tradicionais oferecerão?

O que os operadores de TV a cabo nos EUA estão começando a perceber é que qualquer que seja a saída, ela depende de plataformas de distribuição com grande capacidade de interação, e por isso o cabo estaria (pelo menos nos EUA) bem posicionado. E o caminho que está sendo encontrado pelos operadores para responder a uma demanda que, pelo menos nos EUA, parece ser inevitável, é algo que está sendo chamado de switched vídeo. É, na prática, dar a cada assinante uma TV a cabo customizada, com o conteúdo que ele quiser, na hora que ele quiser, e possivelmente no lugar que ele quiser.

“Não é algo para este ano e talvez não para o próximo. Mas vai mudar a forma de ver e fazer televisão”, diz Mike LaJoie, CTO da Time Warner. “É uma promessa fascinante do ponto de vista da tecnologia, algo ainda distante, mas com sérias implicações. E a primeira delas é o conceito de direitos sobre o conteúdo. Hoje os operadores de cabo têm direito para uma cidade, ou uma região. Fazer um produto como esse é possível, mas o programador vai me deixar entregar, via banda larga, esse conteúdo para o meu assinante, onde quer que ele esteja?”, questiona-se o executivo da Time Warner. Há ainda outro problema, que é pagar a produção do conteúdo que o usuário poderá escolher livremente. As sérias que a ABC abriu na Internet, por exemplo (“Lost”, “Desperate Housewives”, “Alias”) são grandes sucessos, com grande investimentos publicitários. Mas a maior parte da produção de conteúdo hoje é subsidiada por uma grade que mistura coisas quentes, como estas séries, com outras nem tão quentes. No final das contas, a conta fecha. Deixar o usuário escolher só o que ele quer pode inviabilizar esse modelo, e ainda não há outro no lugar. E conteúdos personalizados ou feitos por outros usuários existem hoje como brincadeira, mas não como negócio. Quem pagaria, por exemplo, os enormes custos de produção de eventos esportivos ou jornalismo em um modelo de TV não-linear, não-local e não-temporal?

Outra preocupação dos operadores de TV paga dos EUA é que hoje o consumo de mídia não se dá mais apenas dentro de casa. O hábito do celular faz com que as pessoas saiam de casa e continuem ligadas a um dispositivo que pode ser uma alternativa de informação, entretenimento e serviços, além de um telefone. Não por acaso, quatro das maiores operadoras norte-americanas (Time Warner, Cox, Comcast e Bright House) formaram este ano uma joint-venture de US$ 200 milhões (até aqui) com a operadora móvel Sprint. Trata-se de uma iniciativa para oferecer, nas redes de telefonia celular da Sprint, serviços integrados aos das operadoras de cabo, incluindo os serviços de voz (fixos) e dados. Mimi Thigpen, VP de estratégias da Cox, explica que esse não é um empreendimento que busca apenas o empacotamento conjunto de contas.

“A proposta é convergir os serviços. As pessoas estão levando suas opções de mídia, comunicação e entretenimento para fora de casa, portanto para fora dos domínios das operadoras de TV a cabo. E por isso precisamos das redes móveis para continuar com esse assinante onde ele estiver”, diz Thomas Nigel, VP de serviços wireless da Comcast. “Temos que combinar os canais de venda, a infra-estrutura, os canais de atendimento, as plataformas de billing, a manutenção e o marketing de cinco empresas diferentes, de duas áreas diferentes. É uma joint-venture monumental, mas ela está dando certo”. Mais do que vender os serviços de celular e TV paga de forma conjunta, as empresas estão colocando os conteúdos das redes de cabo no celular, para acesso aos guias de programação, controle dos dispositivos de gravação à distância, alerta sobre eventos que começaram ou vão começar, compra de produtos e outras funcionalidades comuns”, diz Thigpen. “Por que estamos fazendo essa joint-venture? Porque a lógica do assinante pede para que nós simplifiquemos as coisas para ele. Só por isso”, diz John Garcia, presidente e CEO da joint-venture e executivo da Sprint.

Nos EUA, competição com teles não assusta

O futuro da televisão como ela é conhecida hoje parece estar se mostrando uma preocupação maior para as empresas de TV por assinatura nos EUA do que a competição com as empresas de telefonia, por exemplo, que por lá (ao contrário do Brasil) estão muito agressivas em suas estratégias para oferta de serviços de vídeo. Também lá, como aqui, o centro da discussão está no plano regulatório: as teles querem ter licenças mais amplas, para regiões, estados ou mesmo para todo o país – coisa que as empresas de cabo não têm –. Kyle McSlarrow, presidente da NCTA, a associação nacional de operadores, foi quem deu o recado. “Apoiamos qualquer mudança de regra que leve a uma desregulamentação do mercado, desde que isso se aplique a nós e aos nossos competidores de forma isonômica”. A NCTA promete manter a briga com as teles, “sem deixar de responder a nenhum ataque ou a nenhuma campanha negativa”.

Para David Fellows, CTO da Comcast, “as teles não estão trazendo a fibra até a casa do assinante. Eles estão trazendo uma fibra até algum lugar e depois entrando na casa do assinante com cabo coaxial. E é exatamente isso que as empresas de cabo fazem”, diz. Interessante notar que, nos EUA, nenhuma das grandes operadoras de cabo sequer considera o risco de competição por redes ADSL.

“Acho que hoje as operadoras de cabo têm uma rede muito melhor do que a rede das teles simplesmente porque a nossa rede existe, e a deles ainda não. Claro que você deve levar a sério alguém que tem bilhões para gastar e que vai investir em infra-estrutura, mas o que quer que eles façam, nós teremos condições de fazer”, diz Mike LaJoie, da Time Warner.

“A nossa rede de cabos foi destruída pelo Katrina em New Orleans. Tivemos que refazê-la do zero, e estudamos todas as arquiteturas possíveis, para fazê-la no estado da arte. E sabe o que descobrimos? Que uma rede HFC (fibra e cabo coaxial) seria o ideal sob todos os aspectos”, diz Chris Bowick, CTO da Cox.

Outro tema central para as empresas de cabo nos EUA e que está distante da realidade brasileira é o da neutralidade das redes. Lá, quem entrega a maior parte da banda larga do país são as redes de cabo (25 milhões de assinantes, de um total de 40 milhões). Com o crescimento dos serviços baseados em redes banda larga, como os de VoIP e portais que oferecem download de conteúdos, a questão da neutralidade tornou-se central, ou seja, se as redes banda larga devem se comportar da mesma maneira para os diferentes serviços ou não. “Na minha opinião, isso é impossível, porque tecnicamente temos que garantir determinadas qualidades em serviços que vendemos, e isso vai significar que a rede não será igual para todos”, diz LaJoie, da Time Warner. “Internet é um mundo de coisas sem dono que trafega por redes privadas. Não tem como querer ser neutro”.

A questão da neutralidade está diretamente ligada à competição que as próprias empresas de TV a cabo estão criando no mercado de voz. Elas têm hoje apenas 5,6 milhões de assinantes, mas crescendo a taxas altíssimas.

O que tem chamado a atenção dos operadores é o percentual de fidelidade que os serviços de telefonia adicionam. Para empresas de cabo, o churn (desligamento de assinantes) tende a cair 45% com a adição do serviço de voz. As teles têm respondido aos serviços de voz competitivos por parte das operadoras de cabo de forma lenta. “A impressão que dá é que as teles só acordam quando chegamos a um percentual incômodo de mercado”, diz David Pugliese, diretor de telefonia da Cox.

Mas a maior parte das operadoras de cabo nos EUA não tem aberto mão de dar aos seus serviços de voz mais qualidade no tráfego de dados. Isso tem gerado protestos por empresas que usam as redes de banda larga das operadoras para trafegar seus serviços, como a Vonage e outras operadoras. Elas argumentam que a rede precisa ser neutra. “Não concordo que a rede tenha que ser neutra. Eu não estou bloqueando serviço nenhum. Só estou dando ao meu serviço uma qualidade maior quando ele trafega na minha rede, e isso é justo”, diz Mark Sakalowsky, da Comcast. Aliás, na sessão de abertura do terceiro e último dia do evento, Glenn Britt, CEO da Time Warner, também abordou o tema da neutralidade da rede. “Acho que quando se discute essa questão da neutralidade se esquece que alguém investiu muito na rede para que os serviços trafeguem. E é justo que quem investiu busque remunerar esse investimento. Oferecer diferentes níveis de serviço é uma forma nova e promissora”.