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ABRIL 2006 - Nº 159 ÍNDICE

mercado

Parceria reforçada

André Mermelstein

Acordo bilateral e eventos conjuntos marcam o fortalecimento das relações do Brasil
com o Canadá na realização de co-produções audiovisuais.

No final de março, representantes de canais de TV, produtoras e órgãos governamentais canadenses estiveram no Brasil para uma série de atividades ligadas à indústria audiovisual. O evento foi mais um passo na aproximação do Brasil com o parceiro do Norte, que ganhou força com a assinatura de um acordo bilateral entre os dois governos.
Em 22 de março, o presidente do National Film Board (NFB) do Canadá, Jacques Bensimon, assinou o tratado com a Secretaria do Audiovisual do MinC.

Pelo acordo, o NFB, a Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura do Brasil e demais parceiros concordaram em explorar oportunidades de co-produção para filmes experimentais, de animação e documentários. Haverá um intercâmbio de expertise e de estratégias entre ambos nas áreas de distribuição e programas de visita, possibilitando a cada parceiro distribuir os catálogos do outro, e a colaboração em programas de treinamento e de educação em artes visuais, além de um intercâmbio de know-how tecnológico. O NFB e seus parceiros brasileiros estão também analisando de que maneira poderá ser aplicada no Brasil a experiência canadense com a oficina móvel Wapikoni, em colaboração com o Les Productions dês Beaux Jours, para os cineastas vindos das populações nativas canadenses.

Um dos pontos centrais do acordo é a criação de um fundo de 50 mil dólares canadenses (aprox. R$ 93 mil, que pode ser ampliado para CAN$ 100 mil) para desenvolvimento de projetos de co-produção. O fundo será alimentado em partes iguais pelo NFB e pelo MinC. Serão financiados cinco projetos, com CAN$ 10 mil cada (aprox. R$ 18 mil). A única condição para participar é que o conteúdo seja de interesse do público dos dois países.

Ainda, o NFB e a Associação Brasileira dos Produtores Independentes de TV (ABPI-TV) enviarão dois animadores brasileiros iniciantes à próxima etapa do programa Hothouse do NFB. Trata-se de programa intensivo com duração de doze semanas, no qual os animadores criarão curtas de animação com o apoio e a monitoria de especialistas em criação do National Film Board.

Seminário

O momento mais intensivo da visita foi o seminário “Co-produzindo com o Canadá”, promovido pela ABPI-TV (Assoc. Bras. dos Produtores independentes de TV) nos dias 23 e 24 de março, com 21 representantes daquele país. Além dos seminários e debates, os produtores brasileiros tiveram a oportunidade de realizar reuniões individuais com potenciais parceiros canadenses. O evento teve apoio do Consulado geral do Canadá em São Paulo e da Air Canada.

Segundo o presidente da ABPI-TV, Fernando Dias, o Canadá tem grandes afinidades com o Brasil e tem se apresentado como um dos parceiros principais nas co-produções internacionais. Apenas neste evento de São Paulo, conta, foram marcadas mais de cem reuniões de trabalho.

A opinião é compartilhada por Jacques Bensimon, que lembrou que o Brasil é o maior parceiro comercial do Canadá na América do Sul. E deu o caráter político da aproximação:
“O trabalho conjunto fortalecerá as duas culturas diante da globalização”.

Um dos destaques foi a participação do produtor canadense Eric Michel, ex-membro do NFB e atualmente produtor executivo sênior para desenvolvimento da FRV Media International, grupo que conta com financiamento de quatro grandes fundos estatais e privados, além de ações negociadas na bolsa canadense.

Michel explica que tem a função de desenvolver negócios no mercado internacional, na área de documentários, principalmente longas-metragens para exploração inicialmente em cinema.
Mas ele também afirma que a exploração das chamadas multiplataformas é uma exigência do grupo. “Não vejo como começar um projeto sem pensar no ‘long tail’, ou seja, em sua exploração nas múltiplas janelas, inclusive banda larga e celular. Temos certeza que esse é o futuro”, afirmou.

Michel conta que busca filmes sobretudo nas áreas de meio-ambiente, animais e ciências. Seu grupo também atua como distribuidor de ficção, com um acervo de 54 títulos que define como “family films”. E todos com um viés bem específico: a não-violência. “Temos um compromisso em promover a não-violência. Mesmo quando um tema exige uma ação violenta, em nossos filmes isso nunca é mostrado de forma explícita ou degradante”, afirma.

Numa primeira etapa, Michel buscou relacionamentos na Europa. Mas agora, afirma, a vez é do Brasil. A primeira parceira foi a Grifa Mixer, com quem desenvolve uma relação há um bom tempo. “Foi difícil convencer os sócios a trabalharem com o Brasil. Não conheciam nada, só os clichês. Não tinham idéia da arquitetura, da tecnologia, da escolaridade que se encontra aqui”, disse.

Com a Grifa Mixer, Michel trabalha hoje em três projetos: “Fordlândia”, “Muriqui” e “Golfinhos”. Os dois últimos prevêem lançamento em cinema. Os filmes devem estar concluídos até 2009.

O canadense também assinou um memorando de interesse em duas séries da produtora NSet, de São Paulo (conhecida pelo programa “Avesso”, do canal Sony). Tanto “Focus” quanto “Ipsis Literis” mostram, em programetes de dois a três minutos, o funcionamento de alguns equipamentos da vida moderna, como o celular. O conteúdo, pelo seu formato, é atraente tanto para a TV, como interprograma, quanto para dispositivos móveis, como celulares ou iPods.

Outras atividade

No Brasil, os canadenses participaram ainda do workshop “Animando com o Canadá”, realizado em parceria entre o Senac e o Centro de Educação Canadense (CEC). O Brasil, aliás, será o tema central do Festival Internacional de Animação de Ottawa. Dentro do festival (que existe desde 1976, sob a então presidência do lendário animador Norman McLaren) haverá a terceira edição da Conferência de Animação em Televisão (TAC), dirigida ao desenvolvimento de negócios. Sua primeira edição teve mais de 200 profissionais de países como Austrália, China, França, Índia, Itália, África do Sul, EUA e Coréia do Sul (além do Canadá).

Houve ainda uma mostra de cinema com uma seleção das melhores produções financiadas pelo National Film Board, com exibições digitais, em parceria com a Rain Network, em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Curitiba e Porto Alegre. Jacques Bensimon reuniu-se com os representantes da Rain Network do Brasil para discussões a respeito das iniciativas conjuntas de cinema digital e da ampliação desta rede para o cinema independente.