|
evento
O império do conteúdo
Edianez Parente
MIP TV, maior mercado de audiovisual do mundo, mostra que a quantidade não será o problema num universo multiplataforma.
Se a forma de ver TV como conhecemos está fadada ao fim, o mesmo não ocorre com os conteúdos audiovisuais, que no momento só fazem se multiplicar, com vistas a chegar a inúmeros meios de distribuição. Na grande feira de conteúdo audiovisual mundial deste primeiro semestre, o MIP TV 2006, o que se viu foi mais uma vez uma enorme oferta em programação, verificada em centenas de estandes, da Áustria ao Vietnã, e que pôde ser conferida por mais de 12 mil visitantes. Mas a ida em abril a Cannes (França) mostrou aos players desta indústria que há ainda muito o que se entender sobre qual será a forma de consumo destes conteúdos e quais hão de se sobressair.
Enquanto nos estandes os canais, estúdios, produtoras e programadoras ofereciam seus produtos de forma linear e finalizada, prontos para serem distribuídos nos formatos que os empacotadores e distribuidores quiserem, nos ambientes de discussão, os pensadores, criativos e dirigentes das majors do conteúdo debatiam um ponto crucial para quem atua neste negócio. Afinal, num universo onde se escolhe o que se quer assistir na hora em que se quer, um ponto esquecido vem à tona: o espectador também passa a escolher principalmente o que não quer mais ver.
Neste sentido, uma das apresentações mais enriquecedoras do evento foi exatamente a que não tinha nenhuma resposta para a questão de qual será o conteúdo-chave no ambiente digital. Gary Carter, chief creative officer para novas plataformas da Fremantle Media do Reino Unido, disse que “muitos sites vão nos guiar na produção de televisão”. Como keynote speaker em painel sobre conteúdo durante o evento, o executivo deixou claro que o grande desafio para os fornecedores de conteúdos hoje é criar programas neste novo ambiente que a tecnologia proporciona ao público. “Pela primeira vez, agora a audiência possui as mesmas ferramentas que os criadores de conteúdos têm, e eles também têm criatividade. Portanto, também vão querer criar o seu conteúdo”. Ele diz que, para não morrer, a indústria de TV deve aprender, tal como fez a indústria da música, a olhar para a web. Em tempo: a Fremantle é uma major da programação, e seu portfólio inclui os sucessos mundiais “O Aprendiz” e “Ídolos”.
Reality
Mark Burnett, um dos papas dos reality shows em TV, criador de atrações como “Survivor” (no Brasil exibido como “No Limite”), também foi pela mesma linha. Ele, que antes se definia como um criador de programas de TV, hoje em dia se apresenta como um produtor de conteúdos para várias plataformas. Burnett tem sua própria empresa de formatos, que leva o seu nome. O criativo também chama a atenção para a liberdade na nova realidade virtual: “Hoje em dia, toda criança tem sua própria câmera digital”, diz. Ele acredita em sites como o Myspace.com como indicativo de como as pessoas trabalham seu próprio conteúdo, mas lembra que as coisas convivem lado a lado e que apenas as boas histórias funcionam – “tudo é uma questão de contar boas histórias”, diz. A empresa de Burnett tem um novo game show nacional, uma espécie de corrida do ouro, cujas pistas do mapa estarão hospedadas no site da AOL. Esta gigante da Internet, aliás, cada vez mais se apóia em conteúdos de vídeo para se sustentar. Segundo afirmou Jonathan Miller, seu chairman e CEO, a AOL tem hoje metade de suas receitas em publicidade (a outra metade vem das assinaturas do serviço), o que só aconteceu depois que passou a disponibilizar mais conteúdos de vídeo aos usuários.
Atenta ao que se passa no mundo digital, a gigante Microsoft marcou presença ao exibir suas inovações para vídeos em três frentes: broadband, celular e HD-DVD. Erick Huggers, general manager do Windows Media, mostrou as ferramentas que lança para facilitar a navegação por este universo. Como a nova versão do software Media Player e a interação do console de games X-Box 360 com a TV. “Acreditamos que a próxima onda será o HD-DVD”, afirmou Huggers. Ele fez uma demonstração de conteúdos interativos possíveis sobre os DVDs de alta definição – que lançou mais uma dúvida do que uma certeza: será mesmo que as pessoas hão de querer que o diretor de um filme entre na cena para explicá-la, enquanto a história corre solta? De qualquer forma, a Microsoft diz que precisa de parceiros em todas estas novas áreas.
Audiência
Alguns indicativos de hábitos de audiência na esfera on demand – quer via Internet ou por celular – foram apresentados no MIP TV.
A operadora de telefonia móvel O2 e a MTV Networks do Reino Unido trouxeram alguns dados que chamam a atenção para o comportamento do usuário de telefonia móvel que compra serviços de vídeo. A MTV comparou os horários de audiência do consumidor de vídeo no celular e o telespectador e observou um pico de audiência, entre o público adulto, às 23h. “A curva é similar à da audiência de televisão”, mostrou Matthew Kershaw, diretor da MTV no Reino Unido. A programadora criou os canais específicos para a telinha do celular: o Snax (de variedades) e o Trax (para os videoclipes musicais).
Na cidade de Oxford, a operadora de celular O2 detectou que o nível de consumo médio do usuário de vídeo é de três horas por semana, com programas que duram em média 23 minutos. A surpresa é que o local onde as pessoas assistem mais é em casa e o primetime é o mesmo da TV aberta: horário da noite, com picos às 22h e 23h. Quem mostrou os dados foi Hugh Griffths, da operadora. “Poder escolher o seu canal é o grande driver do serviço”, afirmou Griffths, lembrando que há conteúdos de CNN, Discovery, MTV e canais da Sky disponíveis para o celular. A Nokia também pesquisou o hábito dos usuários de celulares que baixam vídeos, e detectou que as pessoas fazem download, em geral à noite, para assistir depois, quando têm tempo.
No ambiente de broadband – estatísticas dão conta de 500 milhões de usuários no mundo -, chama a atenção o serviço de vídeo digital Homechoice. Disponível apenas em Londres e com 45 mil assinantes que pagam assinaturas de até 25 libras/mês para terem até 130 canais diferentes, a empresa fez um ranking dos canais mais vistos entre todos os ofertados. Os mais vistos pelos usuários são todos de conteúdo de video on demand: conteúdo infantil, filmes e música. Os canais convencionais (grandes redes) também são oferecidos pelo serviço, e em média os assinantes da Homechoice assistem a 20 horas/mês de conteúdo sob demanda.
Brasileiros vendem e vão às compras
Globo, Record e ABPI-TV participaram do MIP TV com estandes na feira.
A Globo, que promove principalmente a venda de suas novelas, também fez um evento fora da feira para os clientes. “Carandiru – Outras Histórias”, minissérie nacional derivada do longa-metragem e também dirigida por Hector Babenco, é uma das apostas da Globo para venda no mercado internacional, em especial para os países europeus. Outra oferta da emissora ao mercado internacional é a minissérie “Hoje é Dia de Maria”, que foi exibida em duas “jornadas”, no primeiro e segundo semestres de 2005. “Belíssima”, “Alma Gêmea”, “América” e as minisséries “Mad Maria” e “JK” foram apresentadas aos prospects da Globo. De acordo com Helena Bernardi, diretora de vendas internacionais da emissora, as novelas vêm ganhando, de forma até surpreendente, espaço também em horários vespertinos das emissoras abertas na Europa. Segundo Helena, as conversações sobre o desenvolvimento de co-produções em dramaturgia continuam com todos os possíveis parceiros, mas um ponto fundamental das discussões tem sido a conciliação entre as metas de qualidade da emissora e os custos que as redes/produtoras esperam ter para produções regionalizadas a partir de roteiros da Globo.
A Record, por sua vez, fechou durante o MIP TV a venda de sua novela “Prova de Amor” pra a RTP, emissora aberta de Portugal. O canal já exibe “Escrava Isaura” no horário da tarde. Na mesma negociação, foi também fechada a venda de “Essas Mulheres”, contou o diretor responsável pelas vendas internacionais da emissora, Delmar de Andrade.
A Record vem sendo muito procurada por emissoras de paises do Leste Europeu, interessadas nas suas telenovelas – Rússia, República Tcheca e Croácia estão entre os paises onde há a maior procura. Também, pela primeira vez começam a aparecer canais interessados nas produções da Record de países como Índia e Paquistão, onde a opção é pelas legendas. A maioria dos mercados opta pela dublagem. A Record vende principalmente as três novelas (“Escrava Isaura”, “Essas Mulheres” e “Prova de Amor”), mas já há interesse no mercado sobre a novíssima “Cidadão Brasileiro”.
No estande da ABPI-TV, no mesmo local onde a associação se instalara no Mipcom, no último mês de outubro, os produtores brasileiros cumpriram toda uma agenda de reuniões com eventuais parceiros internacionais. Isto porque o que os produtores nacionais procuram e precisam, no momento, é de contratos que viabilizem seus projetos de realização no Brasil com recursos estrangeiros. Canais pagos internacionais, redes abertas e produtoras são os “prospects” dos brasileiros. Embora nenhum contrato tenha sido assinado no evento – em geral, as feiras servem para fazer e atualizar contatos -, a presença da produção brasileira mais uma vez foi marcante. Produtoras como TV Pingüim, Canal Azul, Pródigo, 2DLab, Bossa Nova, Grifa/Mixer e NSet aproveitaram o evento para expandir seus contatos com o mercado internacional e dar continuidade às negociações iniciadas em outros mercados, que já renderam parcerias importantes.
“Estamos começando agora a explorar o mercado internacional e nos surpreendemos com o resultado”, conta Rosaura Pesseti, diretora geral da NSet. Em sua segunda participação numa feira internacional, a produtora do “Avesso”, do canal Sony, disse que saiu do MIP TV com uma série de contatos interessados em algumas de suas produções.
Pouco antes do evento, a Apex, agência brasileira de fomento à exportação, renovou o acordo com a ABPI-TV para o projeto de exportação de conteúdos audiovisuais, pelo qual, entre outras coisas, os produtores participam das feiras globais. A renovação é por um ano, mas pode ser estendida para um período de dois anos, pois a agência entende que os processos de negociação internacional têm maturação lenta.
Segundo o gerente nacional da área de serviços e entretenimento da Apex, Christiano Lima Braga, a expectativa é de que o projeto gere negócios da ordem de US$ 12 milhões em 2006. Nos dois anos iniciais o projeto gerou US$ 20 milhões em negócios, aproximadamente. A agência também espera ampliar em 30% o número de empresas beneficiadas.
Compras
Globo, Record, TV Cultura e Bandeirantes foram a Cannes em busca de conteúdos. Pela Cultura, a procura era por produtos para sua faixa adolescente, carente de novas atrações em ficção. A Bandeirantes, que foi apenas como compradora, tem a grade completa para este ano, mas não deixa de acompanhar os lançamentos do mercado.
Pela primeira vez, a diretora geral do canal GNT, Leticia Muhana, participou da feira de programação do MIP TV de olho em conteúdos ficcionais, como séries e filmes. O canal fez uma aposta ousada ao exibir seriados – vide a repercussão do inusitado “Weeds” – e colheu bons frutos. “Viemos antes para o MIP Doc, onde vimos algumas produções que nos despertaram interesse”, afirmou a diretora, que pretende programar uma sessão temática com os documentários mais interessantes que viu no mercado. O GNT tem equilíbrio entre a oferta de programação nacional (45%, praticamente toda operacionalizada por produtoras independentes sob o crivo editorial do canal) e estrangeira (55%). Depois de um reposicionamento no mercado - o canal voltou-se mais ao público feminino -, o GNT recentemente estreou novas atrações, como uma faixa semanal (aos domingos) dedicada a filmes de longa-metragem. Títulos estrangeiros e também filmes brasileiros se encaixam na sessão denominada “Luz, Câmera e Batom”. Leticia segue também em busca de títulos para esta sessão e conferiu as novidades do segmento ao lado do diretor artístico do canal, Jorge Espirito Santo.
No Japão, falta modelo para a TV no celular
Um painel em especial do MIP TV tinha algo a dizer relacionado ao Brasil. Foi a apresentação de Takeshi Natsuno, VP sênior e diretor geral de serviços multimídia da maior operadora japonesa de telefonia móvel, a NTT DoCoMo (com 50 milhões de clientes). O Japão, detentor do padrão ISDB - o preferido dos radiodifusores brasileiros - estreou em março as transmissões em TV aberta para terminais móveis.
“Não temos um modelo de negócios muito claro”, afirmou Natsuno, explicando que, por opção política, o Japão oferece TV aberta no celular de forma gratuita e simultânea à transmissão fixa dos broadcasters. “Os modelos são diferentes; o broadcasting é para as massas”, disse. Ele explicou que, dada a falta de receitas, é difícil subsidiar a venda de handsets (aparelhos celulares) para o usuário. Os terminais aptos a receber TV começaram a ser vendidos há dois anos, e hoje somam 6 milhões. “Temos de descobrir um modelo de negócios”, afirmou Natsuno, “mesmo porque a TV não divide a sua receita de publicidade com a operadora”. A tele é ela mesma um das grandes anunciantes da TV aberta no Japão, explicou Natsuno.
Apesar do pouco tempo, a operadora já detectou os hábitos de audiência de TV por parte dos seus clientes. O primetime (horário nobre) da TV aberta vista pelos japoneses no celular, conforme mostrou Natsuto, tem sido a hora do almoço, muito provavelmente por quem está no trabalho. Ainda, a operadora detectou um grande número de usuários que assistem à TV enquanto falam ao telefone.
A NTT DoCoMo estreou em abril um novo serviço, mas para a TV paga. Começou a vender também o conteúdo dos canais fechados, a TV multicanal via satélite. Takeshi Natsuno disse a este noticiário que, por se tratar de um serviço novo, ele não tinha ainda como dimensionar a receptividade e o mercado. Mas um dos apelos do serviço de canais pagos via satélite será a oferta de canais de áudio - o rádio ainda não foi convertido ao padrão digital no Japão.
Interatividade
Embora não esteja ainda claro o seu modelo de negócios, entre as possibilidades de oferta de conteúdo relacionado com TV aberta por parte da operadora, o executivo da NTT DoCoMo mostrou ser possível à empresa de telefonia disponibilizar e vender dados em separado. Como exemplo, estão algumas informações sobre determinadas atrações em tela fora da freqüência da TV - por exemplo, ao assistir um show da TV aberta, o usuário cai para uma tela fornecida pela operadora com informações extras. Também podem ser vendidos em separado músicas-temas de programas da TV, dados de conteúdos esportivos. Há ainda os guias eletrônicos de programação de TV, muito demandados no Japão, onde segundo o executivo os mais jovens não buscam estas informações nos jornais, simplesmente porque não os compram.
Desafios
Para o executivo da NTT DoCoMo, a possibilidade de download do conteúdo da TV aberta deve acontecer, quando negociadas e resolvidas as atuais questões de direitos autorais - os usuários poderão no futuro utilizar o aparelho como um DVD portátil móvel, armazenando o conteúdo da TV aberta, durante a noite, por exemplo, para assistir depois. |