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através da janela
  Direção: Tata Amaral
Produção: A. F. Produções
Roteiro: Fernando Bonassi e Jean-Claude Bernardet
Dir. de Fotografia: Hugo Kovenski
Dir. de Som: Eduardo Santos Mendes e João Godoy
Dir. Arte: Ana Mara Abreu e Clô Azevedo
Figurinos: Cristina Camargo
Storyboard: Líbero Malavoglia
Preparação de Atores: Márcio Aurélio
Música Original: Lívio Tragtenberg e Wilson Sukorski
Montagem: Idê Lacreta
Dir. de Produção: Caio e Fabiano Gullane
Produção Executiva: Van Fresnot
 
Fachada cenografada
simula abandono.
Teto sem forro para instalar
luzes e cabos.
 
Uma mãe e seu filho, entre eles uma janela. Em seu segundo longa-metragem - "Através da janela" -, a diretora Tata Amaral volta a abordar um tema psicológico, a exemplo de seu bem sucedido "Um céu de estrelas". As relações conflituosas entre a mãe, uma enfermeira aposentada vivida por Laura Cardoso, e seu filho de 22 anos, interpretado pela revelação do teatro paulista Fransérgio Araújo, do grupo teatral de José Celso Martinez Corrêa, ocorrem em uma casa de classe média e é através de uma janela, como diz o próprio título do filme, que se desenvolvem os conflitos.

O filme está orçado em US$ 1,7 milhões e é produzido pela A. F. Produções, de Alain e Van Fresnot. Além dos dois personagens principais - Selma e Raimundo - o filme ainda conta com as participações de Ana Lúcia Torres, como a amiga de Selma, Tomasina, e participações especiais de Fernando Alves Pinto, Leona Cavalli, Débora Duboc, João Acaiabe, Antônio Pétrin, José Wilker e Eucir de Souza.

O plano de produção prevê oito semanas de filmagem, com fim marcado para este mês, principalmente na locação que representa a casa da personagem principal. A precipitação dos acontecimentos na trama acontece a partir do momento que Raimundo e seus amigos trazem para casa um rapaz ferido. E toda a história se desenvolve entre a casa de Selma e uma casa abandonada bem em frente, durante o período de cinco dias. "A proposta era de que realmente a locação proporcionasse essa relação com a janela, onde a personagem pudesse ver a rua e a casa em frente e não houvesse preocupação de que isso não parecesse real", explica o diretor de produção Caio Gullane.

Por isso, a escolha da locação foi fundamental. A casa escolhida está no bairro da Lapa, região residencial na Zona Oeste de São Paulo, e possui uma grande janela. Além da casa em si, a produção ainda conseguiu convencer os donos da casa em frente a transformar sua residência de classe média em casa abandonada. A fachada foi toda cenografada, mas internamente a casa continuou igual e habitada. A casa escolhida para locação foi totalmente reformada e preparada para a filmagem.

Como cerca de 70% das filmagens acontecem dentro da casa, a produção resolveu investir em sua preparação. Toda a estrutura foi modificada. A sala e um dos quartos tiveram o forro e parte do madeiramento removidos para a instalação do grid de iluminação. Todos os cabos foram passados pelo teto, evitando tropeções e a possibilidade de aparecerem em cena. Exposto, o telhado precisou de tratamento acústico. A cozinha também foi modificada, para que parte dela servisse de cenário e outra fosse usada pela produção. Essa pré-produção consumiu cerca de cinco semanas da equipe.

DIREÇÃO DE FOTOGRAFIA

Segundo o diretor de fotografia, Hugo Kovenski, as mudanças compensaram, pois tornaram a locação extremamente funcional. A iluminação suspensa, assim como os cabos, deixam o assoalho totalmente livre para a ação e os movimentos de câmera. O equipamento utilizado é uma câmera leve da Aaton, de 35 mm, com Aaton Code para a pós-produção. No maquinário, também consta um dolly Fischer 11, que é pequeno e passa por todas as portas, além de um steadycam.

A linguagem do filme está totalmente marcada na fotografia. Kovenski explica que a fotografia se altera à medida que o tempo passa no filme. "Os enquadramentos, as lentes, os movimentos e a luz vão dando maior dramaticidade conforme a narrativa se aprofunda", conta. O filme conta com muitos planos seqüência e travellings, acompanhando os personagens. "Nosso desafio é superar a monotonia e a sensação de claustrofobia", diz.

Como o contraste vai se intensificando ao longo da ação, a dificuldade está em reproduzir a luz de planos seguidos quando filmados separadamente. Por isso, a diretora procurou trabalhar em blocos de continuidade. "Este filme é maior, tem mais cenários. ‘Um céu de estrelas’ foi feito em seqüência, mas nesse caso nem tudo é possível", acredita o diretor de fotografia.

Kovenski adianta que o filme deve estrear um novo equipamento de trabalho, a estação Indaw, da Aaton. O equipamento permite sincronizar som e imagem em off line, fazendo com que o montador já comece a trabalhar com o material todo sincado.

DIREÇÃO DE ARTE

O ambiente em que circulam os personagens foi totalmente criado pela equipe de direção de arte. Além da reforma estrutural, a casa também passou por uma mudança cenográfica. A fachada, que tinha grades com lanças, recebeu um murinho e portões baixos. A sala ganhou elementos vazados, que combinaram com os móveis e enfeites. "É como se a moradora tivesse se casado na década de 70, montado sua casa e nunca mais mexido em nada, pois é uma personagem conservadora", afirma a diretora de arte Clô Azevedo. Ao mesmo tempo, ela tem eletrodomésticos modernos na cozinha, o que reforça a idéia da mulher que já trabalhou mas, aposentada, hoje dedica-se à casa.

A janela ampla da sala - condição absoluta para a escolha da locação - deixa ver a casa abandonada em frente. Vidros quebrados, pintura descascada, madeiras encostadas e portões envelhecidos alteraram completamente a casa cedida.

Por ser em um bairro residencial, as casas também permitem a filmagem na própria rua e a equipe não se afasta muito de seu QG para filmar externas, onde as amigas Selma e Tomasina passeiam e conversam.

PREPARAÇÃO DOS ATORES

O diretor teatral Márcio Aurélio está estreando no cinema com a preparação dos atores de "Através da janela". Mas as câmeras não são suas desconhecidas. "Minha formação é de TV, fiz direção na RAI e, ao voltar para o Brasil, é que comecei no teatro", conta. A oportunidade de voltar a um meio audiovisual, diz Márcio Aurélio, foi interessante não só como exercício pessoal, mas pela oportunidade de oferecer outro tipo de trabalho na direção dos atores.

Seu trabalho no filme teve início dois meses antes da filmagem. Em uma primeira fase, discutiu e estudou o roteiro com a diretora, para melhor conhecimento e adaptação dos personagens. Em seguida, começou a ensaiar os atores principais. "A Tata me pediu um trabalho ‘limpo’, com o desenvolvimento narrativo das personagens de forma e simples, além dos exercício de situações", conta o diretor. Foram contatados um médico e uma enfermeira para fornecer dados concretos de suas profissões e aspectos técnicos que deveriam ser utilizados principalmente pela personagem Selma. As conversas foram gravadas e trabalhadas nos exercícios.

Márcio Aurélio já tivera contato com Laura Cardoso, "namoros para trabalhar juntos", como ele diz, mas nunca concretizados. A motivação para encarar o filme também veio da fase inicial do trabalho, que agradou ao diretor.

O trabalho com cinema está ainda sendo intercalado com produções teatrais, que o diretor prepara para serem exibidas em Weimar, na Alemanha. No futuro, quem sabe alguma produção em cinema, mas por enquanto o diretor prefere investir mais em outros trabalhos desse tipo. "Para reconhecer elementos contemporâneos e de tecnologia", afirma.