| Uma mãe e seu filho, entre eles uma janela.
Em seu segundo longa-metragem - "Através da
janela" -, a diretora Tata Amaral volta a abordar um
tema psicológico, a exemplo de seu bem sucedido "Um
céu de estrelas". As relações conflituosas entre
a mãe, uma enfermeira aposentada vivida por Laura
Cardoso, e seu filho de 22 anos, interpretado pela
revelação do teatro paulista Fransérgio Araújo, do
grupo teatral de José Celso Martinez Corrêa, ocorrem em
uma casa de classe média e é através de uma janela,
como diz o próprio título do filme, que se desenvolvem
os conflitos. O filme está orçado em US$ 1,7 milhões e
é produzido pela A. F. Produções, de Alain e Van
Fresnot. Além dos dois personagens principais - Selma e
Raimundo - o filme ainda conta com as participações de
Ana Lúcia Torres, como a amiga de Selma, Tomasina, e
participações especiais de Fernando Alves Pinto, Leona
Cavalli, Débora Duboc, João Acaiabe, Antônio Pétrin,
José Wilker e Eucir de Souza.
O plano de
produção prevê oito semanas de filmagem, com fim
marcado para este mês, principalmente na locação que
representa a casa da personagem principal. A
precipitação dos acontecimentos na trama acontece a
partir do momento que Raimundo e seus amigos trazem para
casa um rapaz ferido. E toda a história se desenvolve
entre a casa de Selma e uma casa abandonada bem em
frente, durante o período de cinco dias. "A
proposta era de que realmente a locação proporcionasse
essa relação com a janela, onde a personagem pudesse
ver a rua e a casa em frente e não houvesse
preocupação de que isso não parecesse real",
explica o diretor de produção Caio Gullane.
Por isso,
a escolha da locação foi fundamental. A casa escolhida
está no bairro da Lapa, região residencial na Zona
Oeste de São Paulo, e possui uma grande janela. Além da
casa em si, a produção ainda conseguiu convencer os
donos da casa em frente a transformar sua residência de
classe média em casa abandonada. A fachada foi toda
cenografada, mas internamente a casa continuou igual e
habitada. A casa escolhida para locação foi totalmente
reformada e preparada para a filmagem.
Como cerca
de 70% das filmagens acontecem dentro da casa, a
produção resolveu investir em sua preparação. Toda a
estrutura foi modificada. A sala e um dos quartos tiveram
o forro e parte do madeiramento removidos para a
instalação do grid de iluminação. Todos os cabos
foram passados pelo teto, evitando tropeções e a
possibilidade de aparecerem em cena. Exposto, o telhado
precisou de tratamento acústico. A cozinha também foi
modificada, para que parte dela servisse de cenário e
outra fosse usada pela produção. Essa pré-produção
consumiu cerca de cinco semanas da equipe.
DIREÇÃO
DE FOTOGRAFIA
Segundo o
diretor de fotografia, Hugo Kovenski, as mudanças
compensaram, pois tornaram a locação extremamente
funcional. A iluminação suspensa, assim como os cabos,
deixam o assoalho totalmente livre para a ação e os
movimentos de câmera. O equipamento utilizado é uma
câmera leve da Aaton, de 35 mm, com Aaton Code para a
pós-produção. No maquinário, também consta um dolly
Fischer 11, que é pequeno e passa por todas as portas,
além de um steadycam.
A
linguagem do filme está totalmente marcada na
fotografia. Kovenski explica que a fotografia se altera
à medida que o tempo passa no filme. "Os
enquadramentos, as lentes, os movimentos e a luz vão
dando maior dramaticidade conforme a narrativa se
aprofunda", conta. O filme conta com muitos planos
seqüência e travellings, acompanhando os personagens.
"Nosso desafio é superar a monotonia e a sensação
de claustrofobia", diz.
Como o
contraste vai se intensificando ao longo da ação, a
dificuldade está em reproduzir a luz de planos seguidos
quando filmados separadamente. Por isso, a diretora
procurou trabalhar em blocos de continuidade. "Este
filme é maior, tem mais cenários. Um céu de
estrelas foi feito em seqüência, mas nesse caso
nem tudo é possível", acredita o diretor de
fotografia.
Kovenski
adianta que o filme deve estrear um novo equipamento de
trabalho, a estação Indaw, da Aaton. O equipamento
permite sincronizar som e imagem em off line, fazendo com
que o montador já comece a trabalhar com o material todo
sincado.
DIREÇÃO
DE ARTE
O ambiente
em que circulam os personagens foi totalmente criado pela
equipe de direção de arte. Além da reforma estrutural,
a casa também passou por uma mudança cenográfica. A
fachada, que tinha grades com lanças, recebeu um murinho
e portões baixos. A sala ganhou elementos vazados, que
combinaram com os móveis e enfeites. "É como se a
moradora tivesse se casado na década de 70, montado sua
casa e nunca mais mexido em nada, pois é uma personagem
conservadora", afirma a diretora de arte Clô
Azevedo. Ao mesmo tempo, ela tem eletrodomésticos
modernos na cozinha, o que reforça a idéia da mulher
que já trabalhou mas, aposentada, hoje dedica-se à
casa.
A janela
ampla da sala - condição absoluta para a escolha da
locação - deixa ver a casa abandonada em frente. Vidros
quebrados, pintura descascada, madeiras encostadas e
portões envelhecidos alteraram completamente a casa
cedida.
Por ser em
um bairro residencial, as casas também permitem a
filmagem na própria rua e a equipe não se afasta muito
de seu QG para filmar externas, onde as amigas Selma e
Tomasina passeiam e conversam.
PREPARAÇÃO
DOS ATORES
O diretor
teatral Márcio Aurélio está estreando no cinema com a
preparação dos atores de "Através da
janela". Mas as câmeras não são suas
desconhecidas. "Minha formação é de TV, fiz
direção na RAI e, ao voltar para o Brasil, é que
comecei no teatro", conta. A oportunidade de voltar
a um meio audiovisual, diz Márcio Aurélio, foi
interessante não só como exercício pessoal, mas pela
oportunidade de oferecer outro tipo de trabalho na
direção dos atores.
Seu
trabalho no filme teve início dois meses antes da
filmagem. Em uma primeira fase, discutiu e estudou o
roteiro com a diretora, para melhor conhecimento e
adaptação dos personagens. Em seguida, começou a
ensaiar os atores principais. "A Tata me pediu um
trabalho limpo, com o desenvolvimento
narrativo das personagens de forma e simples, além dos
exercício de situações", conta o diretor. Foram
contatados um médico e uma enfermeira para fornecer
dados concretos de suas profissões e aspectos técnicos
que deveriam ser utilizados principalmente pela
personagem Selma. As conversas foram gravadas e
trabalhadas nos exercícios.
Márcio
Aurélio já tivera contato com Laura Cardoso,
"namoros para trabalhar juntos", como ele diz,
mas nunca concretizados. A motivação para encarar o
filme também veio da fase inicial do trabalho, que
agradou ao diretor.
O trabalho
com cinema está ainda sendo intercalado com produções
teatrais, que o diretor prepara para serem exibidas em
Weimar, na Alemanha. No futuro, quem sabe alguma
produção em cinema, mas por enquanto o diretor prefere
investir mais em outros trabalhos desse tipo. "Para
reconhecer elementos contemporâneos e de
tecnologia", afirma.
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