| Há cerca de quatro anos, os sabonetes
Vinólia vem lançando edições limitadas, com
embalagens desenhadas por artistas plásticos famosos.
Desde o ano passado, a Lever associou às edições
especiais promoções que, este ano, levam o consumidor a
Florença (Firenze), na Itália. O diretor de criação
Virgilio Neves procurou associar à imagem do produto um
clima de sofisticação, que atraísse a atenção do
consumidor pela força do prêmio. Como a viagem é
para Firenze, o projeto se materializou a partir da
idéia de transformar a mulher - principal público-alvo
- em figuras de obras de arte que podem ser vistas na
cidade. Foram escolhidas duas obras de Botticelli, o
"Nascimento de Vênus" e "Alegoria da
Primavera".
As
transformações da Vênus e da ninfa, porém, não
poderiam ser explícitas, "mas suave e na frente do
espectador", explica Neves. Partindo dessas
premissas, produtora e finalizadora partiram para um
processo exaustivo de trabalho. A começar do casting. A
princípio, foram testadas 60 modelos, que se afunilaram
para uma lista de 32. Ambas as escolhidas são o que se
pode chamar de sósias das personagens das obras. Além
da semelhança física, a Vênus foi submetida a uma
intensa oficina de interpretação, para que seu olhar se
parecesse ao do quadro.
Na
produção, figurino, maquiagem e cabelo também exigiram
dos profissionais boa dose de suor. A ninfa veste um
traje transparente, com um caimento especial, o que pediu
testes e mais testes em tecido e modelagem. A Vênus tem
cabelos de mais de um metro de comprimento, feito com
fios naturais em vários apliques, coloridos exatamente
como no quadro. Além disso, foram usadas traquitanas
para que eles se movimentassem, até ficarem na posição
pintada por Botticelli, permitindo a animação ao vivo.
Todo o corpo da modelo, que aparece nua, foi maquiado.
Para essa preparação, a modelo passou oito horas nos
camarins.
A
direção de arte, explica a diretora Paula Trabulsi,
reproduziu em estúdio os fundos dos quadros, com cores e
texturas. Procurando evitar qualquer deturpação que
pudesse ferir os princípios das pinturas, a diretora
estudou exaustivamente as obras e criou movimentos
prováveis, que pudessem estar acontecendo no momento do
registro. "No Nascimento de Vênus, dois
anjos sopram espirais de flores. Há um movimento
explícito que foi reproduzido com as flores
voando."
O filme
parte do nascimento da Vênus, passa pela promoção, com
as embalagens e o texto referente à promoção, até
chegar à ninfa de Primavera. Esse roteiro foi definido
em conjunto por agência e produtora, para que a harmonia
entre as obras de arte antigas e o design moderno do
produto não se chocassem. A imagem da Vênus já estava
definida, mas o uso da ninfa como segunda personagem foi
uma solução de Paula para unir pelas cores as duas
obras e o produto. Assim que a Vênus real se transforma
no quadro, as flores fazem a passagem para a primeira
embalagem, ambas em tons rosados. Do último sabonete
para o quadro seguinte, a cor creme da embalagem se
refere ao vestido da ninfa, produzindo uma mudança suave
e elegante.
A trilha
sonora também exigiu cuidados e preciosismo. A música
é de uma ópera francesa, mas a letra foi traduzida para
o italiano por causa da alusão a Firenze. A princípio,
o maestro tentou um contato com um coral de São Paulo,
mas não houve resposta. Com um único telefonema a Roma,
um coral local se apaixonou pela idéia e, pela primeira
vez, aceitou participar de um filme publicitário.
Orquestra e coral romanos participaram da gravação.
Com todos
os elementos prontos, entrou em cena a pós-produção em
full house da Casablanca, que também se debruçou
durante dias sobre o filme. As flores que passeiam por
todo o comercial foram filmadas em fundo azul e aplicadas
sobre o fundo final, explica Connie, da finalizadora.
Complicada
mesmo foi a transição entre o rosto da modelo que faz a
Vênus e sua correspondente no quadro. Um frame, com a
imagem do rosto, foi frisado e retocado no computador com
a textura do quadro. Só nesse processo de pintura foram
seis dias. Depois, essa imagem foi adaptada ao rosto do
quadro, que tinha proporções muito diferentes.
Botticelli viveu no período pré-Renascimento e por isso
suas obras apresentam características ímpares. A
anatomia de seus personagens deixou de lado a falta de
proporção medieval, mas ainda não atingiu a
perfeição buscada pelo Renascimento. A Vênus, por
exemplo, tem um pescoço muito longo para os ombros, que
são demasiadamente estreitos, além dos braços, que
quase alcançam os joelhos, mas tem formas etéreas e
voluptuosas, características jamais desenvolvidas por
seus predecessores.
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