|
Em geral, trabalhar
com crianças costuma exigir maior planejamento e concentração
redobrada da equipe. Quando o número de crianças é
muito grande, o empenho tem de ser ainda maior. No caso do filme "Crianças",
além de haver 60 pimpolhos reunidos, parte deles era portadora
de algum tipo de deficiência e só havia um dia para a
filmagem.
O filme, criado
pela equipe da BelmontCom, tem como objetivo divulgar uma mensagem
antipreconceito, mostrando como é possível integrar
o deficiente seja físico ou mental desde a infância.
A idéia era mostrar muitas crianças brincando
crianças de todas as raças, normais ou especiais
em um grande jardim. "Quisemos mostrar que os deficientes têm
os mesmos direitos de cidadania, mas que por preconceito não
são respeitados. E as crianças, melhor do que ninguém,
são capazes de se integrar sem preconceitos", analisa
o diretor de criação Daniel Belmont.
A campanha, que
inclui um filme de um minuto, 90 segundos e spots para rádio,
foi criada para a Sorri Brasil, federação ligada ao
Ministério da Saúde que reúne diversas ONGs que
trabalham com deficientes.
O filme mostra
as crianças brincando em um parque, em um ambiente que remete
a sonho. Em off, a voz de um menino diz que um dia não haverá
mais preconceito e todas as crianças poderão viver integradas.
Enquanto o menino fala, as imagens mostram as crianças brincando
juntas, com imagens em sépia. Então entra outra locução,
feita pelo ator Paulo Goulart, dizendo que na verdade o sonho pode
ser real, bastando apenas que as pessoas cumpram as leis já
existentes, que propõem o acesso aos deficientes. As imagens,
então, tornam-se coloridas.
casting especial
Para
selecionar as crianças que participariam do filme, a produção
recorreu a clientes anteriores. No ano passado, a Planeta já
tinha produzido filmes para a AACD e o Centro de Informação
para a Vida Independente (Civi). Aproveitando a proximidade dos temas,
pediu sugestões. Era preciso ter uma proporção
parecida com a da vida real entre as crianças especiais e normais
cerca de 10%, segundo o diretor Marcelo Braga. O grupo ainda
deveria reunir portadores de tipos diferentes de deficiências.
Com a ajuda das instituições, foram selecionadas uma
criança cega, algumas com deficiências físicas,
outra com paralisia cerebral e outra com síndrome de Down.
Braga também tinha de escolher crianças normais que
encarassem a situação da forma mais natural possível.
Por isso, recorreu a uma escola na capital paulista que promove a
integração de deficientes e mesclou com crianças
de diversas origens étnicas, já que o filme prega, antes
de mais nada, o fim de qualquer tipo de preconceito.
integração
com tato
Além
de todas as preocupações com as crianças, a produtora
tinha apenas uma diária para rodar todos os planos e o roteiro
pedia um dia ensolarado, com o céu bonito. O planejamento teve
de ser feito nos mínimos detalhes, com um shooting board seguido
à risca.
Quando se fala
em 60 crianças no casting, também devem ser considerados
60 acompanhantes. Ou seja, as locações receberam cerca
de 120 pessoas para o filme, fora as quase 40 pessoas da equipe.
O
diretor Mazinho Botelho conta que a ambientação com
as crianças custou um pouco, porque os cuidados sempre acabam
sendo excessivos. "Ficamos procurando as palavras, porque nessas
horas descobrimos que também temos dificuldade para lidar com
a situação", diz Botelho. "Tivemos muito tato
para explicar as cenas antes e colocar cada criança na cena
mais adequada. Mas elas mesmas descontraíam o ambiente, estavam
rindo o tempo todo. É incrível quando paramos para pensar.
Reclamamos de tantas coisas e essas crianças estão sempre
rindo...", completa Braga.
No
filme, é possível notar a presença de duas crianças
que têm uma grave deficiência física. Ambos têm
o mesmo problema: as pernas e um dos braços não são
completos. Com o auxílio de próteses ou apenas de um
protetor, os dois caminham e brincam normalmente. A garota participou
de uma cena em que várias crianças andam sobre o tronco
de uma árvore. O garoto estava muito à vontade brincando
de esconder. "Propusemos sempre brincadeiras simples, brincadeiras
de rua às quais qualquer um pode ter acesso", afirma Braga.
câmera presente
As
cenas foram rodadas em um bosque no Sesc Interlagos, zona sul de São
Paulo. A produção utilizou uma câmera 35 mm e
alguns recursos extras para mostrar as situações mais
de perto. As cenas do alto foram feitas com uma grua e a partir de
um certo ponto das filmagens foi usado um steadicam, que permitia
uma visão mais próxima das crianças.
A montagem foi
feita na própria produtora, mas as cenas que remetem a sonho
foram trabalhadas em Smoke na Espaço Digital. "As cenas
de sonho foram as últimas a ser filmadas. Nessa época
do ano, no final da tarde, o sol fica muito baixo e perdemos um pouco
dos fundos. No Smoke, fizemos os highlights e aqui tratamos as imagens
em sépia", explica Braga.
"Apesar
de termos uma só diária para filmar, o bom de trabalhar
com crianças é que elas se integram naturalmente. Não
precisamos ensaiar nada, porque o roteiro simplesmente pedia que elas
brincassem e elas agem de maneira muito natural", conclui
Daniel.
|