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cidade congelada
Cliente: AES
Agência: W/Brasil
Direção de Criação: Ruy Lindenberg
Produção: JX Filmes
Direção: Julio Xavier
Fotografia: Walter Carvalho
Montagem: João Arruda
Trilha: YB
Pós-produção: JX Filmes e Terracota.

Fora da tomada

Como seria o mundo se não existisse energia elétrica? Ou se tudo fosse desligado da tomada? Esse foi o conceito desenvolvido pela W/Brasil para o filme da AES, multinacional que está no Brasil há cinco anos e só agora inaugurou sua participação na mídia. A AES entrou no País após a privatização no setor de energia e construiu uma usina termoelétrica em Uruguaiana (RS). Para divulgar a obra e sua participação institucional, a empresa decidiu começar com um filme de peso.

O filme registra o momento em que a energia cessa, deixando todas as coisas e pessoas literalmente paradas no ar. "Não se trata simplesmente de um apagão, mas da maneira como a energia é encarada. Ninguém se lembra que não só as indústrias mas até o chopp gelado não existiriam sem a energia", explica o diretor de criação Ruy Lindenberg.

São várias cenas em que as pessoas estão em movimento e de repente param, mas a câmera realiza um movimento em torno delas, criando uma sensação de volume e de planos sobrepostos, ao contrário do simples congelamento das imagens, que transforma tudo em uma fotografia, em imagem estática. "As imagens teriam de estar congeladas, mas não com um simples efeito de freezing. Por isso optamos por trazer o sistema de câmeras utilizado no longa ‘Matrix’", explica Lindenberg.

O orçamento, de R$ 700 mil, previa dois dias de filmagem com a câmera, o que permitiria rodar três cenas. As demais seriam feitas apenas com efeitos normais de freezing. "No final, os americanos gostaram da noite paulistana e resolveram ficar cinco dias. Pudemos então fazer todas as cenas com o efeito que tínhamos imaginado", explica Washington Olivetto. "Tínhamos uma grande idéia que só poderia ser realizada assim. Sabíamos que seria caro, mas o cliente também apostou", completa.

O filme original, de um minuto, divulga a nova usina de Uruguaiana. As informações estão todas na locução. Para aproveitar a carga institucional do filme, porém, serão feitas novas versões, com novo texto, em 45 e 30 segundos. Em tempos de seca e previsão de racionamento de energia, o filme ainda serve como propaganda contra o desperdício de energia.

Tudo parado

A brincadeira começa em frente ao Teatro Municipal de São Paulo, quando um guarda de trânsito apita para os carros. Tudo, então, pára. A cena tem muitos elementos: uma executiva, que deixa voar folhas de papel, um rapaz anda de skate, um motoqueiro e muitos pedestres. Em outra situação, crianças brincam no Pátio do Colégio com pombos. Um jogador de futebol faz uma bicicleta, um cozinheiro frita uma panqueca que fica suspensa no ar, um grupo de amigos toma chopp. Uma das cenas mais bonitas plasticamente é a de uma garota na piscina. A imagem pára justamente na hora em que ela sai da água e joga o cabelo para trás. Todas as gotas e o cabelo em movimento ficam suspensos.

"Na cena das garotas com as pombas, tínhamos de contar com um elemento extra, que era a boa vontade das pombas. A produção colocava comida para elas, e esperávamos até que um bando se reunisse. Daí rodávamos a cena. Mas depois de um certo tempo, elas perceberam e foi ficando mais difícil atrai-las para a comida", conta o diretor.

Equipamento especial

A câmera de múltiplas lentes usada no filme "Matrix" veio dos Estados Unidos. Sua característica é a de congelar não só a imagem, mas todo o quadro, de modo que a mesma imagem, vista sob várias perspectivas diferentes, realce cada elemento. Nesse caso, a câmera estava sobre um carrinho, que realizava um movimento semicircular em torno do elemento central da ação. "A câmera pode fazer tanto um arco semicircular, circundando o objeto a um ângulo de 120o, como ser montada em espiral", explica o diretor Julio Xavier. O equipamento utilizado tinha 80 lentes e por isso teve de ser montado em espiral, ou seja, a primeira lente estava em posição superior à última. "Se todas as lentes ficassem paralelas, a primeira filmaria a última e vice-versa, fazendo com que ambas aparecessem em quadro. No início e no final da câmera especial, havia câmeras normais, que rodaram o movimento antes e depois do efeito."

O efeito realizado pela câmera é o de um travelling circular ao redor do personagem, só que os elementos permanecem parados na posição em que estavam quando a câmera foi acionada. A película passa pelas 80 lentes, que imprimem um fotograma cada, simultaneamente, como uma câmera de still. É a visão dessas 80 fotos que dá a sensação de suspensão imediata do movimento, com profundidade e volume.

Acertos finais

O uso do equipamento não é complicado, mas trabalhoso. A montagem e calibração da câmera exigem cerca de três horas. Para ajustar o foco e determinar o ponto focal para o qual todas as lentes devem convergir, é preciso usar controles a laser. Além disso, a coordenação dos atores deve ser perfeita, para que todos os elementos em quadro estejam na posição precisa quando a câmera for acionada. Julio Xavier explica que a equipe que acompanhou o equipamento, vinda de Nova York e da Suíça, era muito especializada. Mesmo assim, "a primeira vez foi muito difícil, pois a cena não tem poucos elementos. Pelo videoassist, víamos se tínhamos conseguido captar direito os elementos parados. Com isso, só conseguíamos filmar dois planos por dia. O principal sacrifício era dos atores, que pouco eram exigidos em termos de interpretação, mas tinham de ter uma movimentação perfeita".

A finalização não exigiu efeitos especiais além dos já impressos na película e um pouco de tratamento de imagem. A composição foi complicada, já que resultou da fusão de três imagens: a da câmera posicionada no início do movimento, as 80 chapas da câmera especial e a da câmera que é acionada assim que o movimento semicircular termina.