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Fora da tomada
Como seria o mundo
se não existisse energia elétrica? Ou se tudo fosse
desligado da tomada? Esse foi o conceito desenvolvido pela W/Brasil
para o filme da AES, multinacional que está no Brasil há
cinco anos e só agora inaugurou sua participação
na mídia. A AES entrou no País após a privatização
no setor de energia e construiu uma usina termoelétrica em
Uruguaiana (RS). Para divulgar a obra e sua participação
institucional, a empresa decidiu começar com um filme de peso.
O filme registra
o momento em que a energia cessa, deixando todas as coisas e pessoas
literalmente paradas no ar. "Não se trata simplesmente
de um apagão, mas da maneira como a energia é encarada.
Ninguém se lembra que não só as indústrias
mas até o chopp gelado não existiriam sem a energia",
explica o diretor de criação Ruy Lindenberg.
São várias
cenas em que as pessoas estão em movimento e de repente param,
mas a câmera realiza um movimento em torno delas, criando uma
sensação de volume e de planos sobrepostos, ao contrário
do simples congelamento das imagens, que transforma tudo em uma fotografia,
em imagem estática. "As imagens teriam de estar congeladas,
mas não com um simples efeito de freezing. Por isso optamos
por trazer o sistema de câmeras utilizado no longa Matrix",
explica Lindenberg.
O orçamento,
de R$ 700 mil, previa dois dias de filmagem com a câmera, o
que permitiria rodar três cenas. As demais seriam feitas apenas
com efeitos normais de freezing. "No final, os americanos gostaram
da noite paulistana e resolveram ficar cinco dias. Pudemos então
fazer todas as cenas com o efeito que tínhamos imaginado",
explica Washington Olivetto. "Tínhamos uma grande idéia
que só poderia ser realizada assim. Sabíamos que seria
caro, mas o cliente também apostou", completa.
O filme original,
de um minuto, divulga a nova usina de Uruguaiana. As informações
estão todas na locução. Para aproveitar a carga
institucional do filme, porém, serão feitas novas versões,
com novo texto, em 45 e 30 segundos. Em tempos de seca e previsão
de racionamento de energia, o filme ainda serve como propaganda contra
o desperdício de energia.
Tudo parado
 A
brincadeira começa em frente ao Teatro Municipal de São
Paulo, quando um guarda de trânsito apita para os carros. Tudo,
então, pára. A cena tem muitos elementos: uma executiva,
que deixa voar folhas de papel, um rapaz anda de skate, um motoqueiro
e muitos pedestres. Em outra situação, crianças
brincam no Pátio do Colégio com pombos. Um jogador de
futebol faz uma bicicleta, um cozinheiro frita uma panqueca que fica
suspensa no ar, um grupo de amigos toma chopp. Uma das cenas mais
bonitas plasticamente é a de uma garota na piscina. A imagem
pára justamente na hora em que ela sai da água e joga
o cabelo para trás. Todas as gotas e o cabelo em movimento
ficam suspensos.
"Na cena
das garotas com as pombas, tínhamos de contar com um elemento
extra, que era a boa vontade das pombas. A produção
colocava comida para elas, e esperávamos até que um
bando se reunisse. Daí rodávamos a cena. Mas depois
de um certo tempo, elas perceberam e foi ficando mais difícil
atrai-las para a comida", conta o diretor.
Equipamento
especial
A
câmera de múltiplas lentes usada no filme "Matrix"
veio dos Estados Unidos. Sua característica é a de congelar
não só a imagem, mas todo o quadro, de modo que a mesma
imagem, vista sob várias perspectivas diferentes, realce cada
elemento. Nesse caso, a câmera estava sobre um carrinho, que
realizava um movimento semicircular em torno do elemento central da
ação. "A câmera pode fazer tanto um arco
semicircular, circundando o objeto a um ângulo de 120o, como
ser montada em espiral", explica o diretor Julio Xavier. O equipamento
utilizado tinha 80 lentes e por isso teve de ser montado em espiral,
ou seja, a primeira lente estava em posição superior
à última. "Se todas as lentes ficassem paralelas,
a primeira filmaria a última e vice-versa, fazendo com que
ambas aparecessem em quadro. No início e no final da câmera
especial, havia câmeras normais, que rodaram o movimento antes
e depois do efeito."
O efeito realizado
pela câmera é o de um travelling circular ao redor do
personagem, só que os elementos permanecem parados na posição
em que estavam quando a câmera foi acionada. A película
passa pelas 80 lentes, que imprimem um fotograma cada, simultaneamente,
como uma câmera de still. É a visão dessas 80
fotos que dá a sensação de suspensão imediata
do movimento, com profundidade e volume.
Acertos finais
O
uso do equipamento não é complicado, mas trabalhoso.
A montagem e calibração da câmera exigem cerca
de três horas. Para ajustar o foco e determinar o ponto focal
para o qual todas as lentes devem convergir, é preciso usar
controles a laser. Além disso, a coordenação
dos atores deve ser perfeita, para que todos os elementos em quadro
estejam na posição precisa quando a câmera for
acionada. Julio Xavier explica que a equipe que acompanhou o equipamento,
vinda de Nova York e da Suíça, era muito especializada.
Mesmo assim, "a primeira vez foi muito difícil, pois a
cena não tem poucos elementos. Pelo videoassist, víamos
se tínhamos conseguido captar direito os elementos parados.
Com isso, só conseguíamos filmar dois planos por dia.
O principal sacrifício era dos atores, que pouco eram exigidos
em termos de interpretação, mas tinham de ter uma movimentação
perfeita".
A finalização
não exigiu efeitos especiais além dos já impressos
na película e um pouco de tratamento de imagem. A composição
foi complicada, já que resultou da fusão de três
imagens: a da câmera posicionada no início do movimento,
as 80 chapas da câmera especial e a da câmera que é
acionada assim que o movimento semicircular termina.
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